Tem turista que frita na areia. Tem turista que cozinha na água. Tem turista que assa no sol. E como se fosse pouco, há também o turismo extremo, aquele em que as pessoas querem sentir o que não conseguem sentir em suas vidas seguras e protegidas.
A ideia não é original, mas ganhou forma pelas mãos de Juan Villoro em seu romance mais recente, "Arrecife". O escritor mexicano esteve no Brasil recentemente para lançar o livro na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty.
Um dos nomes mais comentados da literatura mexicana da atualidade, Juan Villoro é mais conhecido no Brasil pela sua produção infantojuvenil, em obras como "O Livro Selvagem" e "O Estádio dos Desejos". Lançado pela editora Companhia das Letras, "Arrecife" é sua primeira obra adulta publicada no País.
"Arrecife" narra a trajetória de Tony, um ex-baixista de heavy metal que vive e trabalha num hotel de luxo do Caribe. Sua ocupação é sonorizar os aquários do lugar. Isso mesmo: fazer música para peixe de aquário (ou dar um jeito para que os peixes façam sua própria música dentro do aquário). Graças ao excesso de uso de drogas no passado, sua mente é formada de imensos brancos. As lembranças de sua vida são breves fragmentos que ele não sabe se são lembranças reais ou delírios do passado junk.
O gerente do hotel é o melhor amigo de Tony, igualmente ex-músico de rock. Sua missão é tentar ocupar os brancos da memória relatando episódios da vida de Tony. As lembranças de Tony são as lembranças que o amigo narra. Ele simplesmente depende de alguém para ter acesso à própria memória.
O hotel em que os dois trabalham não é um hotel tradicional das praias paradisíacas do Caribe. Sua especialidade é oferecer aos turistas de países desenvolvidos o medo recreativo, o perigo controlado. O lugar, com funcionários altamente treinados, oferece aos clientes assaltos violentos, espancamento por marginais (ou policiais), sequestros, confinamento em cativeiro, perseguição de guerrilha, ataques de tubarão, etc, etc. Enfim, fortes sensações e emoções que os habitantes de países ricos não conseguem mais viver. A paranoia recreativa. A ecologia do horror. A máxima de todo esquema é simples: "o terceiro mundo existe para salvar os europeus do tédio". Aquilo que para alguns é horrível, para outros torna-se um luxo.
Com ironia e bom humor, Juan Villoro desenha um quadro nada palatável de seu país, um lugar onde a violência do narcotráfico foi incorporada na vida e na cultura de seus habitantes. A lógica é simples: se os Estados Unidos é o maior consumidor de drogas do mundo, seu vizinho, o México, é o maior fornecedor. Nada mais do que ciências econômicas.
Um dos méritos da literatura de Juan Villoro em "Arrecife" está em não narrar o contexto social diretamente, mas através da vida das pessoas que trabalham no hotel. Cada um dos personagens aporta no local por um motivo diferente. Invariavelmente após um colapso, um nó, um tombo, um desvio, um trauma individual na existência. O cruzamento desses motivos é que confere um sentido maior ao romance.
Tudo começa a ser revelado a partir da misteriosa morte de dois dos funcionários do hotel. O que seria um famoso resort de luxo imaginativo torna-se um espelho da realidade. Nua e crua. As ideias de bem e mal assumem formas confusas, sem um possível rosto reconhecível. E num belo dia, uma das azeitadas engrenagens hotel falha. Emperra por uma simples ação humana, o esqueleto do esquema torna-as visível. Assim as cúpulas de vidro começam a despencar e revelar como funciona toda a estrutura, em que alicerce ela está sustentada. Nada mais do que grandes corporações, sejam legais ou ilegais, brincando de dar sentido ao mundo num grande carnaval.

SERVIÇO
"Arrecife"
Autor – Juan Villoro
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Josely Vianna Baptista
Páginas – 238
Quanto – R$ 39,50 e R$ 27,50 (e-book)

FRAGMENTO - Chove quase todo dia e o narcotráfico manda, quem vai querer vir aqui? - Os imbecis que já estão vindo – respondeu. – O turismo sempre foi uma forma de se ferrar, um castigo que se aceita como diversão. Se você ficasse em casa, mataria a mãe. Só assim se explica que um John Smith qualquer urine no mesmo dia em Amarillo, Texas, no Golfo Pérsico e no Camboja, que leve um sanduíche intragável no estômago e permita que sua cabeça estoure por causa do jet lag. As pessoas não são masoquistas por prazer, mas por sobrevivência, para se unir à bendita massa. Pelo visto, o Atrium só contratava gente com uma linguagem irrefreável. Em meus tempos de coca fui arruinado por um prodígio desse tipo. Mallett continuou: - Você viu as fotografias de multidões nuas no Spence Tunick? É facílimo juntar cinquenta mil pessoas peladas, com os sexos encolhidos pelo frio da madrugada. Todos querem fazer parte de alguma coisa. Fez uma pausa, como se esperasse que surgisse em minha mente cinquenta mil corpos desagradavelmente nus. Depois continuou, satisfeito de se ouvir: - Toda espécie tem seus remédios para o desespero: os cavalos se atiram de desfiladeiros, as baleias encalham na praia, o ser humano faz as malas. No futuro não haverá guerras: haverá turistas, invasores cansados. Uma eutanásia em câmara lenta. Concorda? (Fragmento de "Arrecife", de Juan Villoro)
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