Nuvens negras podem cobrir o céu sem que a vida na terra se altere. Tudo segue como sempre foi se ninguém olhar para cima e enxergar algo diferente. Sem um mínimo fiapo de sol as coisas deixam de possuir sombras para se tornarem, elas próprias, sombras.
Em seu novo romance, "Digam a Satã Que o Recado Foi Entendido", o escritor gaúcho Daniel Pellizzari retira as sombras das coisas para mostrá-las sombras de si mesmas. As coisas em questão não são objetos, mas um grupo de jovens tentando levar a vida da maneira que conseguem. Cada um com seus fantasmas e algum esqueleto no armário. Seguindo os impulsos, conseguem apenas o eterno desajuste e o imenso desencanto.
Com um humor em vários tons de negro, a obra não traz uma narrativa linear. Está edificada sobre várias vozes (o chamado romance polifônico) e no tempo não cronológico. As vozes de seis personagens se intercalam para narrarem o cotidiano mais imediato. Personagens que se cruzam e algum ponto para deixarem de se cruzarem em outro ponto e em seguida se encontrarem em outro lugar.
Os personagens se ligam, das formas mais variadas, a uma agência de turismo de Dublin, Irlanda. Criada por um grupo de malucos, o objetivo da empresa é levar turistas estrangeiros para visitar lugares irlandeses mal-assombrados. Claro que os lugares mal-assombrados não existem, são inventados de acordo com o tamanho da viagem dos monitores e da sede dos turistas que batem palmas e pagam bem.
O ponto de ligação das vozes é Magnus, um rapaz que chega a Dublin para ficar alguns dias e acaba fixando residência assim como outros imigrantes das partes mais díspares do mundo. As relações de convivência entre nativos irlandeses e imigrantes diversos, todos jovens, é um dos elementos trabalhados pelo autor.
"Digam a Satã Que o Recado Foi Entendido" acontece entre o momento em que Magnus recebe um pé na bunda da namorada e o momento em que ela bate em sua porta, um tempo depois, para reatar a relação. O que acontece entre um fato e outro é uma coleção de loucuras e pirações acompanhadas de alguma dose de droga, sexo e cerveja. Aparece um grupo de terroristas juvenis empenhados em abalar os símbolos da cultura irlandesa. Surge uma seita religiosa que pretende ressuscitar um antigo deus mitológico, um deus serpente capaz de salvar o planeta do fim através do sacrifício de uma virgem. E um punhado de situações de humor entre o cinza e o negro.
Em cada voz narrativa, Daniel Pellizzari utiliza uma linguagem diferenciada. Com essas dicções distintas, o romance conquista uma fragmentação ainda maior do que aquela presente no próprio enredo. Um tipo de fragmentação que acompanha a própria fragmentação psíquica dos personagens.
"Digam a Satã Que o Recado Foi Entendido" desenha uma atmosfera sombria da juventude diante da existência contemporânea. Um estado em que qualquer ação é capaz de desencadear reações inesperadas e incontroláveis. A situação onde a imobilidade é capaz de gerar resoluções até então inimagináveis. Nada mais do que os primeiros passos na vida de experimentando uma coleção de tombos.
Apesar das escuras nuvens no céu, "Digam a Satã Que o Recado Foi Entendido" é uma história de amor. Diluída com todo tipo de loucura, mas uma história de amor. Aquela que comporta conquistas, rompimentos, reatamentos. Tudo nos braços de jovens olhando para frente e não enxergando quase nada.
Escritor e tradutor, Daniel Pellizzari nasceu em Manaus, em 1974, e cresceu em Porto Alegre. É autor de dois volumes de contos, "Ovelhas Que Voam e se Perdem no Céu" (2001) e "O Livros das Coisas Que Acontecem", e do romance "Dedo Negro Com Unha" (2005).

Serviço:
"Digam a Satã Que o Recado Foi Entendido"
Autor – Daniel Pellizzari
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 184
Quanto: R$ 37

Aí eu penso no sofrimento da jovem mulher feia na Rússia. Aos dezoito anos, uma garota russa que não seja estonteante deve se sentir um paquiderme. Em partes menos afortunadas do planeta essa menina até poderia ser considerada atraente, mas na Mãe Rússia isso não faz a menor diferença. Em pouco mais de uma década as coisas se invertem. Por volta do aniversário de trinta anos, obedecendo a uma coreografia genética, quase todas as russas incham de uma hora para outra. Viram matronas amargas embaladas em vestidos floridos, escondem a cabeça com lenços que parecem feitos com trapos de cortina e dedicam o resto da vida a zanzar de um lado para o outro com sacolas abarrotadas de manteiga, vodca e batatas. Amargas, suspeito que sempre foram. Jovens russas são uma fruta de casca brilhante que atrai a mordida para só então se mostrar venenosa. É uma estratégia desprovida de qualquer sentido em termos evolutivo, mas estamos falando da Rússia. Não fazer sentido algum é o lema nacional. Aposto nesse absurdo entranhado nos cromossomos como origem das propriedades de bomba-relógio das mulheres russas. E talvez por isso todas venham acompanhadas por uma trilha sonora orquestral muito dramática, com direito a gongo e estouro de canhões. (Fragmento de "Digam a Satã Que o Recado Foi Entendido" de Daniel Pellizzari)
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