Leitura - O desespero mágico
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2006
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
O que acontece na mente de um homem que nunca leu um conto ou um romance em toda sua vida? Que tipo de sentimentos habita o coração de um homem que nunca leu uma poesia? Como se desloca pela vida um homem que desconhece as coisas da imaginação, que nunca percorreu os caminhos da subjetividade?
Para um homem assim, só existe o real e o palpável. Para ele, apenas a objetividade concede sentido ao mundo. Um homem com essas características foi criado pela escritora dinamarquesa Karen Blixen (1885 - 1962) no conto A História Universal. Batizou o sujeito com o nome de Mister Clay.
No conto, Karen Blixen desenha Clay como um velho solitário e avarento que reuniu uma vasta fortuna atuando sem escrúpulos como comerciante. No final da vida, doente, encontra seu único prazer em obrigar um de seus empregados a ler, em voz alta, os livros-caixas nos quais estão registrados seus negócios.
Aos seus ouvidos, números de crédito e débito soam como uma história sedutora. Coisas com nenhuma relação com o desconhecido, mas com a mais pura realidade. Numa dessa leitura, Clay indaga ao empregado se ele sabe da existência de livros que não falam apenas de números. Para surpresa do patrão, o rapaz firma que existem livros que contam histórias.
Então Clay percebe que em toda sua vida conheceu uma única história, narrada por um marinheiro desconhecido numa viagem de negócios. Percebe mais. Compreende que a única não é real, trata-se de uma espécie de lenda entre os marinheiros que cruzam os mares.
Instigado pelas descobertas, Clay decide fazer com que tal história imaginária se torne real. Decide gastar seu dinheiro para converter em realidade a única ficção que conhece. Constrói uma encenação onde apenas um dos personagens não atuará como ator. Só a ele será concedido a vivencia da noção de realidade.
A História Imortal, que possui uma atmosfera semelhante àquela encontrada na de literatura E T. Hoffman e Jorge Luis Borges, traz uma das mais sedutoras características da escrita de Karen Blixen: a narrativa dos tradicionais contadores de história. A própria Blixen afirmava que não se considerava muito mais uma contadora de histórias do que propriamente uma escritora. Seu interesse está em trabalhar com narrativas dentro dos próprios contos, ou seja, inserir histórias no interior de outras histórias.
A História Imortal, que foi transformado em filme pelo cineasta Orson Welles em 1968 com o próprio Welles atuando no papel de Mister Clay, é um dos cinco contos que integram Anedotas do Destino, livro de Karen Blixen que acaba de ser lançado pela Editora Cosac Naify. Trata-se de uma nova edição brasileira do último livro escrito pela autora na realidade os contos foram, devido problemas de saúde, ditados para uma estenógrafa. A edição anterior foi lançada em 1986 pela Editora Record com o título A Festa de Babette.
A Festa de Babette, conto que integra Anedotas do Destino, é o texto mais conhecido de Blixen. Recebeu maior visibilidade após ser adaptado para o cinema, em 1987, num filme homônimo, pelo diretor Gabriel Axel. A Fazenda Africana, outra obra da autora, também foi transformada em filme por Sidney Pollack, em 1985, com o título de Entre Dois Amores.
Anedotas do Destino é uma obra unificada. Todos os contos surpreendem como a noite surpreende o dia e vice-versa. Nas histórias narradas por Blixen, o homem não tem controle exato sobre o seu próprio destino. As variáveis apresentadas pela existência são tão extensas nesse campo, que tal prepotência seria praticamente uma doença. O que lhe resta, na verdade, é apenas a compreensão desse destino, seja ele qual for. Um destino que pode até mesmo trazer as marcas da ficção.


