LEITURA - O desespero do silêncio
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O silêncio é um movimento que pode instaurar o maior de todos os ruídos. Entre duas pessoas, é capaz de arquitetar os mais delicados planos para a anulação do outro. Uma situação que desenha todos os detalhes do desespero a caminho de sua consumação, de seu aniquilamento tanto pela vida quanto pela morte.
O escritor russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881) sempre foi capaz de perceber coisas assim, que permanecem ocultas até que alguém as toque com os dedos da atenção sutil. Isso fica claro em ''Uma Criatura Dócil'', novela de Dostoiévski que está recebendo sua primeira tradução direto da língua russa pela Cosac & Naify Edições.
Publicada originalmente em 1876, na revista ''Diário de um Escritor'' (periódico editado pelo próprio Dostoiévski), a história foi inspirada num fato real noticiado por um jornal da época: o suicídio de uma jovem de dezesseis anos, abalada pela miséria. A partir desse fato, colhido no cotidiano, Dostoiévski escreveu um intrincada história em que os conflitos interiores de um homem em busca de um possível entendimento atinge as bordas do desespero.
''Uma Criatura Dócil'' é a narrativa de um homem que, diante do corpo da esposa suicida, que repousa na mesa da sala, procura entender o ocorrido. Relembrando os acontecimentos, cria pensamentos díspares na tentativa de justificar seus atos e a própria vida. Manipulando suas percepções, desvia uma relação de poder e humilhação para um princípio amoroso.
O narrador, um homem de 42 anos de idade, agiota e dono de uma casa de penhores, possui um passado coroado pelo mistério. Praticamente negocia a compra de sua esposa, um órfã de dezessete anos que vive numa família faminta. De forte caráter e fragilidade corporal, a garota enfrenta grandes dificuldades para se integrar ao mundo do esposo.
A relação entre os dois acontece através do silêncio. Como se duas pessoas seguissem direções contraditórias percorrendo o campo do desespero na tentativa de serem entendidas ou pelo menos sentidas. Ambos tateiam no escuro procurando entender o que acontece dentro do outro, seja no interior do coração ou da mente. E o resultado é um desengano próximo do absoluto, onde a impossibilidade de comunicação gera um mar de equívocos.
Nesse processo, o narrador constrói um sistema de ações, muito mais internas que externas, para ter o controle absoluto da esposa. Utiliza desde delicados mecanismos mentais como métodos de dominação a partir do poder econômico e social. Imobilizada por esse sistema, a jovem procura pontos de fugas que vão se estreitando a cada dia.
No fim do jogo, o amor aparece como possível componente de salvação. Mas, a essa altura, o mundo se recusa a tornar-se suportável. Tudo termina com o desencanto procurando anunciar que o amor é uma barca que leva pessoas de um lado para outro do rio. Grande parte delas não presta muito atenção na embarcação, nem na viagem, pois está ocupada demais com os olhos voltados para a outra margem, o almejado lugar de chegada. Um lugar que, por ironia, nem sempre revela o sentido da travessia.
A cativante atmosfera de ''Uma Criatura Dócil'' está fundamentada naquilo que Dostoiévski chamava de atmosfera do ''homem do subsolo''. Em outras palavras, os labirintos interiores de um homem que se oculta da realidade, dos raios de sol que ilumina e alegra as coisa mais imediatas da convivência humana, para viver nas sombras, nas entranhas profundas da existência.
A surpresa da edição de ''Uma Criatura Dócil'' está nas reproduções de litogravuras realizadas por Lasar Segall que ilustram o volume. Foram criadas para a novela de Dostoiévski em 1917, quando Segall ainda vivia na Alemanha antes de imigrar definitivamente para o Brasil, e nunca foram publicadas ao lado do texto do autor de clássicos como ''Crime e Castigo'' (1866) e ''Os Irmão Karamázov'' (1880).
SERVIÇO:
''Uma Criatura Dócil'' de F. M. Dostoiévski, ilustrações de Lasar Segall, Cosac & Naify Edições, tradução de Fátima Bianchi, 112 páginas, R$ 22,00.


