LEITURA - O delírio do tempo
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A História, tal como a conhecemos ao logo do tempo, pode ser considerada como a arte de abraçar o passado. Vamos supor que alguém, por extremo acaso, num ato de desvario, optasse por inverter a ordem das coisas. Vamos supor que a História deixasse de ser a arte de abraçar o passado e se convertesse na arte de abraçar o futuro. Como se a matéria prima deixasse de ser o tempo passado para ser o tempo futuro.
Essa idéia aparentemente maluca, e ao mesmo tempo carregada de lucidez, está presente em ''Respiração Artificial'', romance do escritor argentino Ricardo Piglia lançado pela editora Companhia das Letras em formato pocket. Trata-se de uma obra que traz em suas páginas os elementos mais sintomáticos da literatura contemporânea.
Não adianta o leitor procurar um enredo clássico com começo, meio e fim porque ele não existe. Também não adianta procurar um tempo cronológico e linear porque ele não está lá. Não adianta buscar uma única voz narrativa porque ela também não existe. ''Respiração Artificial'' é o típico romance polifônico, várias vozes surgem paralelamente e ocupam tempos completamente distintos em movimentos próximos do delírio.
Totalmente fragmentária, a narrativa de Ricardo Piglia coloca cada voz fazendo uso de determinada dicção literária. Existe um personagem escrevendo cartas, outro reconstruindo uma biografia, outro discutindo a formação da literatura argentina, ainda outro revirando fantasmas políticos, mais outro escrevendo um livro para o futuro, outro fazendo do exílio uma obra de arte, outro ainda criando as relações literárias mais improváveis, enfim, uma rede de vozes e visões.
Uma dessas vozes, por exemplo, apresenta o enigmático encontro entre o escritor Franz Kafka e o ditador Adolfo Hitler na cidade de Praga. Esse encontro teria ocorrido quando ambos eram jovens, num bar de boêmios. A partir das conversas que travaram, Kafka teria desenvolvido a idéia central de sua literatura. Seus textos seriam uma espécie de antecipação daquilo que poderia acontecer a partir das palavras de Hitler. Kafka teria convertido em ficção o que Hitler pronunciou que pretendia fazer com a História.
Literatura de História são os dois pilares do romance. Ricardo Piglia transforma não apenas a História em literatura como também transforma a própria Literatura em ficção. ''Respiração Artificial'' é sua primeira experiência com o romance-ensaio, gênero literário relativamente recente em que a ficção se apropria da estrutura ensaística e o pensamento ensaístico se apropria dos elementos da ficção. O escritor tornou-se um dos grandes expoentes do gênero com ''A Cidade Ausente'', obra em que a confluência entre ficção e ensaio se une num único corpo narrativo. O livro foi publicado no Brasil em 1997 pela editora Iluminuras.
Nascido em 1940 em Buenos Aires, onde atua como professor universitário, Piglia divide sua produção entre contos, romances e ensaios. Como ensaísta possui um estilo extremamente sedutor de associação de idéias e pensamentos. Textos que podem ser encontrados em ''Formas Breves'' (Cia. Das Letras, 2004), ''O Laboratório do Escritor'' (Iluminuras, 1994) e ''O Último Leitor'' (Cia. Das Letras, 2006). Vale lembrar que ''Respiração Artificial'' foi eleito como um dos dez melhores romances da história da literatura argentina ao lado de ''A Invenção de Morel'', de Adolfo Bioy Casares, ''Jogo da Amarelinha'', de Julio Cortazar, ''Os Sete Loucos'', de Roberto Arlt, entre outros.
''Por que consegui descobrir que meu romance utópico tem que ser um relato epistolar? Primeiro a correspondência em si mesma já é uma forma de utopia. Escrever uma carta é mandar uma mensagem para o futuro; falar a partir do presente com um destinatário que não se encontra ali, que não se sabe como estará (em que estado de espírito, com quem) enquanto lhe escrevemos e, principalmente depois: ao ler-nos. A correspondência é a forma utópica de conversa, porque anula o presente e faz do futuro o único lugar possível do diálogo''.
(Fragmento de Respiração Artificial)
SERVIÇO
Autor - Ricardo Piglia
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Heloisa Jahn
Quanto - R$ 19 (200 págs.)


