''O sentido último do erotismo é a morte''. Essa frase pronunciada pelo escritor francês Georges Bataille (1897 - 1962) sintetiza, de certa forma, todo pensamento espalhado em suas obras. Assim como o orgasmo é uma espécie de morte simbólica, o erotismo seria o desejo de exaurir-se da vida em nome das forças da carne, o lado palpável da existência. Um tema complexo que os princípios moralistas não ousam tocar.
Bataille foi um autor que tratou do assunto como se pulasse de cabeça num poço de lava. Rompeu limites, criando uma literatura transgressora, e acabou recebendo o rótulo de ''maldito''. Foi seminarista mas acabou não se ordenando padre. Por muitos anos foi bibliotecário da Biblioteca Nacional da França, profissão que exerceu por toda a vida passando por várias instituições.
Sua obra é dividida em dois blocos distinto. De um lado estão seus livros teóricos carregados de lucidez como ''O Erotismo'', ''Teoria da Religião'' e ''A Literatura e o Mal''. De outro está sua ficção erótica, carregada de delírios do desejo como ''Minha Mãe'' e ''O Azul do Céu'' parte dela publicada de maneira clandestina sob os pseudônimos Lord Auch e Pierre Angélique.
Dessa produção erótica, a novela ''História do Olho'' é particularmente cultuada, alvo de admiração por autores como Roland Barthes, Julio Cortázar, Yukio Mishima, Jean-Paul Sartre e Mario Vargas Llosa. Publicada originalmente em 1928 sob pseudônimo Lord Auch com ilustrações de André Masson , foi a primeira ficção escrita por Bataille para dar vazão, a partir da sugestão de seu psicanalista, às suas fantasias sexuais.
''História do Olho'' que até a morte de Bataille recebeu apenas edições clandestinas está ganhando pela Cosac & Naify Edições sua primeira edição brasileira. O livro narra a história de dois jovens, Simone e o narrador atirando-se na extravagância do prazer sexual. Isolados do mundo adulto, bem como da moral social, criam um universo próprio onde a liberdade é total e ilimitada. Correm como seres desembestados em direção ao sexo conscientes de que ele representa, em vários pontos, a morte. Desenvolvem paulatinamente um apetite sexual desenfreado, radicalizando suas práticas com outras pessoas.
''História do Olho'' traz uma inconfundível marca da literatura do Marquês de Sade (Donatien Alphonse François de Sade, 1740 - 1814), escritor e filósofo francês cuja obra deu origem ao termo conhecido como ''sadismo''. Dá vazão à libertinagem irrestrita, implicando até mesmo no sofrimento e na loucura do objeto humano de prazer. Mas, diferentemente de Sade, onde princípios filosóficos são determinantes em suas narrativas, Bataille opta pelo discurso seco, pela descrição crua dos atos com o mínimo de interpretações.
O grande peso da novela, muito além do erotismo exótico e bizarro, está em seu caráter simbólico. O objeto central do desejo reside na imagem do olho. O narrador e Simone se aventuram no prazer com ovos galináceos e glândulas sexuais bovinas, que representariam o olho humano de maneira associativa. Assim, além de colhões e ovos, o ápice da viagem do casal é utilizar o olho humano, arrancado do corpo, como objeto erótico capaz de provocar orgasmos nos orifícios sensíveis ao prazer. Há uma associação direta ao elemento circular, recorrente tanto a nível simbólico como a nível estético formal.
Os leitores de princípios morais rígidos fatalmente ficarão assustados com a história. Os leitores admiradores de Sade, por outro lado, se sentirão em casa. Mas essa é uma abordagem simplista, tratando-se de literatura. Bataille parece sugerir que o prazer extremo estaria muito mais ligado ao simbólico, à imaginação, do que propriamente aos elementos físicos, à carne. E esse simbólico assumiria uma composição destrutiva a partir da consumação do desejo. E quanto mais transgressora e libidinosas foram as experiências da imaginação, mais os amantes estariam envoltos pelas frustrações das limitações do real.
Assim como o sexo conduziria os amantes à uma sensação de morte, mesmo com toda a possibilidade de felicidade do momento, o amor também conduziria a algo parecido. Pode até parecer paradoxal, um princípio da vida se deslocar para os caminhos da morte, mas é justamente essa reflexão executada por Bataille com serenidade.

Serviço:
- ''História do Olho'' de Georges Bataille, Cosac & Naify Edições, tradução e apresentação de Eliane Robert Moraes, ensaios de Michel Leiris, Roland Barthes e Julio Cortázar, 136 páginas, capa dura, R$ 37,00.

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