LEITURA - O declínio da maturidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de julho de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Geralmente a velhice é considerada um período de tranquilidade. Um tempo onde o acúmulo de experiências faz com que as pessoas encarem a existência de maneira serena. Onde os conflitos são brandos e sempre acompanhados de um pacífico entendimento.
O escritor espanhol Enrique Vila-Matas vira completamente essa noção ao avesso em ''A Viagem Vertical'', seu primeiro romance publicado no Brasil. Apresenta a velhice como um período abatido por todas as intempéries da existência. Um tempo em que o passado torna-se avassalador a ponto de deixar as pessoas nuas frente à proximidade da morte.
Lançado pela Cosac & Naify Edições, ''A Viagem Vertical'' narra a história de Federico Mayol, homem de negócios bem-sucedido que construiu uma fortuna a partir do nada, suando a camisa. Aos 60 anos de idade é inesperadamente expulso de casa pela esposa, mulher com quem esteve casado durante toda a vida. O rompimento ocorre sem motivo aparente, apenas sob o argumento de que a mulher, que dedicou toda sua vida à família e aos filhos, deseja levar seus últimos anos de vida sozinha, longe da infelicidade.
Sem entender as causas do drama da esposa, o nacionalista catalão Mayol solicita aos filhos que intercedam a seu favor. Mas, além de tomarem partido da mãe por considerar que está correta e decidida, eles abrem o jogo relatando ao pai suas respectivas frustrações e fracassos. De um dia para outro as certezas de Mayol são viradas ao avesso, caem todas ao chão. E o caminho que encontra para entender a situação é mergulhar em si mesmo e em seu passado vagando pelas ruas de Barcelona, depois por Lisboa, Porto e Ilha da Madeira. Sempre regido e acompanhado por uma sucessão de acasos.
Nesse processo, o protagonista de ''A Viagem Vertical'' entra em contado com a grande frustração de sua vida: não ter conseguido frequentar a escola devido a eclosão da Guerra Civil Espanhola. Ao completar 14 anos, com o início do conflito, é impelido a trabalhar pesado para sobreviver. Assim, faz do trabalho sua guerra pessoal. No final da vida toma consciência que apenas a cultura e a arte poderiam lhe oferecer as ferramentas ideais para a realização íntima e pessoal.
Focalizando o drama de uma geração que, durante a adolescência, viveu uma guerra civil, Enrique Vila-Matas focaliza a velhice e o poder do acaso sem nenhuma espécie de condolência. Nascido em Barcelona em 1948, vem recebendo ao longo dos anos alguns dos principais prêmios literários em países de língua espanhola. Utilizando elementos biográficos e ficção num mesmo plano, sua literatura expressa a idéia de que o ser humano nasce a partir da escritura, ou, para ser mais exato, a partir daquilo que escreve ou se propõe a escrever.
Em ''O Viagem Vertical'' o narrador do romance é o gerente de um hotel onde Mayol solitariamente se hospeda. Apresentando sua vida a um desconhecido, ele começa a escrevê-la, ou melhor, recriá-la. Tanto para fugir da queda livre em direção ao abismo, como para construir uma cultura para si mesmo. Uma cultura para suprir o trauma do passado, uma espécie de porto seguro onde possa ancorar suas experiências em ''estado de velhice''. Recriar a própria existência torna-se um alento, não um pára-quedas, no trajeto entre o topo da montanha e o fim do poço.
Mais do que o relato de um homem abatido por uma queda inesperada, a obra de Vila-Matas é o desenho de um naufrágio refletido nos olhos do capitão da embarcação. Uma situação que parece revelar que o navio não é tudo, e que a imensidão do mar, quem sabe, seja algo mais.
Serviço:
''A Viagem Vertical'', de Enrique Vila-Matas, Cosac & Naify Edições, tradução de Laura Janina Hosiasson, 256 páginas, R$ 39,50.


