Alguns autores do gênero policial possuem a capacidade de apresentar o mal sempre debaixo de um cobertor. Revelam claramente que o mal está o tempo todo próximo. O detalhe é que, na maioria das vezes, ele permanece oculto. Não seria possível enxergar o mal em si, em carne e osso; apenas a forma em que ele se manifesta. E essa forma, quando retirada debaixo do cobertor e colocada à luz do sol, se transforma num incômodo de revirar o estômago.
  Da mesma maneira, esses escritores possuem a capacidade de apresentar o bem sempre debaixo de um outro cobertor. Revelam situações onde não podemos enxergá-lo, apenas desconfiar de sua existência. E quando o bem é retirado debaixo do cobertor e colocado à luz do dia, provoca um espanto semelhante ao incômodo provocado pelo mal.
  O norte-americano Dennis Lehane possui esse tipo de capacidade nas mãos. Em seus romances, quando os cobertores são levantados, aquilo que parecia pertencer restrito a domínios distintos, do mal e do bem, se confunde. Como se ambos pregassem peças na mente esperançosa e desatenta.
  Em seu novo romance lançado pela Editora Companhia das Letras, ‘‘Dança da Chuva’’, Dennis Lehane reforça essa capacidade em construir enredos intrincados onde nem tudo parece ser aquilo que demonstra ser. Retoma como protagonistas os detetives Patrick e Angela, o casal que trabalha não apenas para desvendar crimes e satisfazer clientes, mas para chegar à verdade. E se necessário, fazer justiça com as próprias mãos.
  Em ‘‘Dança da Chuva’’, Patrick empreende uma investigação onde não existe nenhum cliente para dar satisfação. Após travar um breve encontro com uma jovem, não consegue entender o motivo que a levou ao suicídio semanas depois. A garota simplesmente sai do céu e cai no inferno em questão de dias. Com a intuição de que alguém levou a garota ao estado final, o detetive tenta encontrar quem a empurrou abismo abaixo.
  Em grande parte dos romances policiais de Dennis Lehane a violência não é algo restrito ao mundo adulto. Ela é apresentada como algo do mundo, sem distinções. Ou seja, todos estão sujeitos a elas: crianças, jovens, adultos, idosos, animais e plantas. Geralmente a origem dos crimes é encontrada dentro da família, nascem dentro de casa ou em círculos de amizade. Não poupam nada, nem crianças nem cachorros. ‘‘Dança na Chuva’’ segue esse princípio.
  A obra de Dennis Lehane se encaixa perfeitamente à tese do escritor argentino Ricardo Piglia que estabelece uma íntima relação entre o romance policial e a psicanálise. Para Piglia, a figura do detetive surge na literatura para interpretar os acontecimentos a partir de restos de sinais. Uma figura que não pode manter vínculos com nenhuma instituição, nem mesmo a família, e por isso teria condições de julgar a sociedade e seus elementos de maneira independente e livre.
  Em seus romances Lehane extrapola essa tese. No decorrer da narrativa instaura a idéia de que a maioria dos crimes é fruto de impactos psicológicos do passado. Geralmente decorrência de traumas da infância ou da juventude. Em outras palavras, atos violentos são escritos inicialmente na psique do homem antes de se tornarem dura realidade. Um assassinato, por exemplo, existiria inicialmente dentro da cabeça como resposta a algo preso na memória do passado.
  Nas histórias de Lehane os criminosos e assassinos nem sempre acabam presos ou punidos. Eles são capazes de elaborar situações onde simplesmente não há provas para que a polícia os coloque atrás das grades. Assim, a única pena que pode abraçá-los é maldição do peso na consciência ou mesmo o incômodo em viver sob o medo de ser desmascarado.
  Nascido em Boston em 1963, Dennis Lehane vem produzindo livros surpreendentes dentro do gênero policial. Tornou-se mais conhecido quando seu romance ‘‘Mystic River’’ foi transformado em filme por Clint Eastwood com o título ‘‘Sobre Meninos e Lobos’’. Fazendo uso de enredos complexos e personagens psicologicamente intrincados, ocupa hoje lugar de destaque entre os autores do gênero em seu país. Possui cinco livros publicados no Brasil, ‘‘Apelo às Trevas’’, ‘‘Sagrado’’, ‘‘Gone, Baby, Gone’’, ‘‘O Paciente 87’’ e ‘‘Sobre Meninos e Lobos’’.
  ‘‘Dança na Chuva’’, trilhando caminhos semelhantes a outros romances de Lehane, faz da perversão americana contemporânea um jogo de palavras cruzadas. Um tipo de perversão que deixa de ser particular para envolver todos aqueles que estiverem próximos. Vidas que se cruzam para compor um lado nada agradável da mente humana.


Fragmento de ‘‘Dança na Chuva’’, de Dennis Lehane

  ‘‘Fale-me dos Dawe’’, disse eu. ‘‘Você falou que eles são perversos. Não ruins, mas perversos.’’
  ‘‘Uma vez os Dawe deram uma festa de Natal’’, disse ela. ‘‘Houve uma tempestade naquela noite, por isso pouca gente compareceu e comeram muito menos do que tinha. Antes desse Natal, a senhora Dawe uma vez me viu pegando sobras de uma festa e me explicou, com todas as letras, que os pobres é que agiam assim e que eu devia jogar fora todas as sobras de uma festa. Às três da manhã o doutor Dawe entrou no meu quarto segurando a carcaça do peru. Ele atirou o peru na minha cama, me acusando de jogar comida fora. Gritou que era de origem humilde e que o que eu jogara fora podia alimentar sua família por uma semana.’’ Ela deu mais uma tragada no cigarro e tirou outro pequeno fragmento de fumo da língua. ‘‘Ele me obrigou a comer a carcaça do peru.’’
  ‘‘O quê?’’
  Ela confirmou com a cabeça. ‘‘Ele se sentou à beira da cama e foi me enfiando na boca, pedaço por pedaço, até amanhecer o dia.’’
  ‘‘Mas isso é...’’
  ‘‘Contra a lei, não tenho dúvida. O senhor já tentou procurar um emprego doméstico, senhor Patrick?’’
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