LEITURA - O crime da mala
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Seu nome aparece sempre acompanhado de elogios e sedas rasgadas. O carioca Raphael Montes é o escritor revelação da vez. Articulado com as mídias sociais, tem presença marcante na internet.
Até dois anos atrás era um desconhecido aspirante a escritor. Hoje, aos 23 anos de idade, aparece como o jovem que vai "redefinir a literatura policial brasileira". Pelo menos nas palavras do figurão Scott Turow, um dos escritores norte-americanos que mais vende livros mundo afora.
Tudo começou em 2012 com a publicação de seu primeiro romance "Suicidas" pela editora Benvirá. Escrito entre os 16 e 19 anos, o livro foi finalista de três prêmios literários brasileiros (Benvirá, Machado de Assis e São Paulo) e caiu no gosto dos leitores do gênero policial e passou a ser disputado pelas editoras.
Agora a editora Companhia das Letras está lançando seu segundo romance policial, "Dias Perfeitos", que reforça a preferência de Raphael Montes em não seguir as características clássicas do gênero policial. Sua aposta está em eliminar o investigador como personagem principal.
"Dias Perfeitos" narra uma sombria história de amor. Não o amor de beijos e 'amassos', mas o amor doentio, obsessivo e psicótico. O típico amor psicopata. A história de amor entre Téo, um jovem estudante de Medicina, e Clarice, uma jovem aspirante a cineasta. Ele, um cara lógico, ordenado e metódico. Ela, uma destrambelhada, volúvel e caótica.
Téo conhece Clarice e se apaixona desesperadamente. Encontrou a mulher com quem deseja viver o resto da vida. Clarice conhece Téo, acha o cara bonitinho mas um tremendo mala. Téo se joga aos pés da amada, mas a amada o recusa, não tem o menor interesse de ficar ao seu lado.
Na verdade não se trata de uma história de amor entre Téo e Clarice, mas do doentio amor de Téo por Clarice. Diante da recusa da moça em amá-lo, o rapaz simplesmente a sequestra. Submete Clarice a todo tipo de coação, violência e humilhação para que ela aprenda a amá-lo. Ele acha que a jovem vai, com o tempo, amá-lo como ela a ama. Nem que seja na porrada.
Em "Dias Perfeitos", Raphael Montes ressuscita a ideia do lendário crime da mala com uma pequena variação. Troca o corpo morto dentro da mala por um corpo vivo. Téo viaja para vários lugares do Estado do Rio de Janeiro levando a amada, sedada, presa dentro de uma mala.
O romance se restringe apenas isso. Um sujeito torturando a mulher que ama, tentando fazer com que ela perceba que ele é um bom sujeito que deve ser amado. E claro, arrastando a amada dentro de uma mala por lugares que fazem parte do roteiro cinematográfico que Clarice pretende escrever.
Não há mistério, não há investigação, não há surpresas, não há sobressaltos. Apenas uma dose de suspense que não sobrevive ao longo da narrativa. Há o crime, a única coisa que aproxima "Dias Perfeitos" de um romance policial.
O elemento interessante do livro está em ser um romance politicamente incorreto. Narrado pela visão do psicopata apaixonado, o sexo feminino é tratado como objeto em todos os sentidos. Maltratar, espancar, humilhar e torturar a mulher amada é tratado como prova de amor. O crime em nome do amor. A crueldade em nome do amor. E com o tempo, e muita porrada, a mulher amada começa a acreditar que aquele homem realmente é um bom e amável homem. O clássico sadomasoquismo velado. A velha dualidade entre amor e violência.
Há até breves tiradas típicas como: "Lentamente, Clarice se abria para ele, gostava dele. Era natural: ela não tinha mais ninguém. Ele a alimentava, dava carinho e atenção. O mínimo que se podia esperar em troca era aquele afeto sutil, que logo ganharia vigor ele tinha certeza. No fim das contas, mesmo mulheres feministas e alternativas se rendem a um homem de verdade."
SERVIÇO
"Dias Perfeitos"
Autor Raphael Montes
Editora Companhia das Letras
Páginas 280
Quanto - R$ 35 e R$ 24,50 (e-book)


