Algumas pessoas fazem um monte de bobagens e logo em seguida fazem outras bobagens tentando apagar as bobagens anteriores. Depois de um tempo, elas fazem mais bobagens para tentar resolver as bobagens acumuladas. Em seguida, fazem novas bobagens para tentar consertar as bobagens realizadas sobre bobagens e mais bobagens que não foram resolvidas nem apagadas.
Com o passar do tempo, a vida dessas pessoas se resume a um labirinto de bobagens infinitas. Camadas e mais camadas de bobagens gordas e famintas sedentas de novas bobagens gordas e famintas. A palavra bobagem pode ser trocada por erro, equívoco, engano, desacerto, descuido, incorreção, delito, pecado, mancada, marcada, cagada, etc. Tanto faz. O labirinto permanece o mesmo.
Em seu novo romance policial, "A Entrega", o escritor norte-americano Dennis Lehane percorre o labirinto dos erros que não possuem conserto, das bobagens que não possuem reparo, dos pecados que não podem ser perdoados. O livro foi publicado em 2014 nos Estados Unidos e acaba de ser lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras.
"A Entrega" narra a trajetória de Bob, garçom de um boteco de Boston. O típico bar do submundo que possui um administrador laranja e na realidade pertence a mafiosos chechenos que comandam, com violência explicita, uma rede de apostas ilegal.
Bob é um sujeito completamente solitário. O tipo de homem que fala pouco, evita multidões e foge de contatos açucarados de afetividade. Católico praticante e solteirão convicto, vive do trabalho para casa e da casa para o trabalho evitando todo e qualquer tipo de problema ou confusão, inclusive mulheres. Com uma desilusão bem alimentada, e uma desesperança secular, Bob possui todas as certezas de que a vida não possui sentido, mesmo fiel à pratica religiosa. Vive acuado nas sombras do covil da esperança.
Numa noite de frio, caminhando do trabalho para a casa, Bob experimenta um divisor de águas em sua existência. Encontra um filhote de cachorro maltratado, jogado numa lata de lixo. Logo em seguida conhece uma mulher chamada Nadia, igualmente maltratada e sem nenhuma esperança perante a vida.
Colocar, ao mesmo tempo, diante de um sujeito desesperançado, um filhote de cachorro órfão e uma mulher carente poderia transformar o romance de Dennis Lehane numa propaganda de margarina do submundo do crime. O leitor que já teve a experiência de ler obras do escritor ("Sobre Meninos e Lobos", "Apelo às Trevas", "Sagrado", "Gone, Baby, Gony", "Dança na Chuva" e "Naquele Dia", entre outras), pode ter a sensação de estar diante de uma literatura policial pastel de vento até a metade das páginas de "A Entrega".
O fato é que Lehane, em seu novo romance, não coloca muita atenção nos crimes, assassinatos, roubos e tramoias. Ou mesmo nas pistas para a fatal elucidação dos delitos. Seu foco está nas escolhas executadas pelas personagens desesperançadas. Geralmente frente a escolhas que têm mais a ver com a afetividade perdida, desconhecida ou escondida, do que com a força bruta do poder manifesto pela violência.
Em alguns pontos, "A Entrega" chega a lembrar alguns mecanismos dos romances de David Goodis (1917 – 1967). Personagens que, para conseguir alguma liberdade, precisam arriscar afetividades e cometer erros, bobagens e pecados. Até mesmo o único policial envolvido na história, não possui o papel de desvendar crimes e revelar culpados. Seu papel está em questionar a fé de Bob diante da religião, diante da ideia de que todo pecado possui absolvição.
"A Entrega" pode ser considerado o romance mais sutil de Denis Lehane. Os crimes não são os pautados pela violência contra o outro, rios de sangue e outras fantasias. Os crimes são aqueles que as pessoas cometem contra si próprias. Um recurso contemporâneo que coloca maior atenção na relativização do bem e do mal. Uma estratégia que coloca o criminoso e a vítima numa única pessoa. E tudo acompanhado de pecados imperdoáveis, erros irreparáveis e bobagens gordas e famintas de novas bobagens.


Serviço:
"A Entrega"
Autor – Dennis Lehane
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Luciano Vieira Machado
Páginas – 182
Quanto – R$ 39,90 e R$ 27,90 (e-book)


Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - O covil da esperança
| Foto: Reprodução


Fragmento:
Nadia ajoelhou-se diante de Bob e de Rocco. E tomou a cabeça do cachorro nas mãos.
Nádia disse: "Rocco. Não estou por dentro dos santos. Rocco é santo de quê?".
Bob disse: Dos cães. Ele é protetor dos cães".
"Bom, tá".
"E dos farmacêuticos, dos solteirões e dos que sofrem acusações falsas".
"O cara tem trabalho que não acaba mais". Ela ergueu sua cerveja num brinde. "Bem, merda, este não é para são Rocco."
Ela sentou-se novamente e passou a ponta do polegar pela própria cicatriz. "Você nunca pensa que algumas coisas que você faz não merecem... sei lá, perdão?"
Bob disse: "Perdão de quem?".
Nadia apontou para cima. "Você sabe".
Bob disse: "Sim, tem dias que acho que alguns pecados a gente não pode desfazer. Seja lá o bem que se faça depois, o diabo está só esperando o corpo, porque a alma já é dele. Ou talvez não exista diabo, mas você morre, e Deus diz: "Lamento que você não possa entrar. Você fez algo imperdoável, agora vai ter de ficar sozinho. Para sempre".
Nadia disse: "Eu optaria pelo diabo".
"É mesmo?", disse Bob. "Em certas épocas acho que o problema não é Deus. O problema somos nós, sabe?"
Ela balançou a cabeça.
Bob disse: "Nós não permitimos sair de nossas próprias jaulas".

(Fragmento de "A Entrega", de Dennis Lehane)


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