LEITURA - O cotidiano na história
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Pouco conhecida do leitor brasileiro, Natalia Ginzburg foi uma das poucas mulheres a integrar a geração de escritores que desejavam modificar os rumos da literatura italiana do século 20. Ao lado de figuras como Italo Calvino, Cesare Pavese, Elio Vittorini e Eugenio Montale, buscava romper com o tom oficial da literatura após o violento impacto das duas guerras mundiais.
Ativista política de esquerda, Natalia viu o pai e os dois irmãos passarem uma boa temporada na cadeia por lutarem contra o fascismo. Também viu seu primeiro marido, Leone Ginzburg, ser assassinado por questões políticas numa prisão durante o regime fascista italiano. Como filiada ao Partido Comunista, exerceu dois mandatos como deputada. Seu filho, Carlo Ginzburg, autor do cultuado ''O Queijo e os Vermes'', tornou-se um dos grandes historiadores europeus.
Nascida na cidade de Palermo, em 1916, no seio de uma família burguesa de origem judaica, Natalia Levi Ginzburg tinha tudo para exercer uma literatura engajada e ideológica. Mas fez o contrário, criou uma literatura pautada pelo cotidiano, pelas pequenas coisas que acontecem em meio à rotina da vida doméstica enquanto as instituições exercem seus vorazes poderes.
A editora Cosac Naify acaba de lançar dois dos principais romances de Natalia, ''Caro Michele'' e ''Léxico Familiar''. Ambos inspirados em suas próprias experiências familiares, trazem uma espécie de crônica da vida doméstica para retratar o mundo externo em seu real contexto histórico.
''Caro Michele'' é constituído basicamente por cartas. Traz a correspondência entre um grupo de pessoas que possuem algum vínculo afetivo com o jovem Michele. Aspirante a pintor, Michele leva uma vida entre a arte e a boêmia até morrer numa manifestação política de rua.
Num primeiro momento, Michele parece ser o personagem principal da obra. Num segundo momento, fica evidente que ''Caro Michele'' é na realidade um romance sem personagem principal. As cartas particulares, escritas pela mãe preocupada, por uma amiga que pode ter um filho dele, pela irmã solidária, por um amigo fiel e por outros personagens, revelam que o personagem principal da obra é o contexto cultural e social.
Algo semelhante ocorre em relação a ''Léxico Familiar'', onde Natalia narra a história de uma família que atravessa todos os contextos históricos e políticos de uma época conturbada. Baseada nos episódios vividos em sua própria família, a autora realiza a opção de falar dos pequenos acontecimentos do cotidiano para compor um sutil painel social e histórico.
Tanto em ''Caro Michele'' quanto em ''Léxico Familiar'', Natalia Ginzburg faz uso de algo que passou a ser chamado de ''cotidiano invisível'' ou ''pequenos e preciosos nadas''. Algo como revelar as formas de um jardim apresentando a vida cotidiana do jardineiro. Ou, através da descrição das flores que dão forma e cores ao jardim, revelar a vida particular do jardineiro. Tudo isso estendido às questões históricas, políticas e sociais.
Imersa nesse processo, a literatura de Natalia Ginzburg (1916 - 1991) caminha numa linha divisória entre a chatice e a inovação. Traz em suas páginas um risco eminente que, dentro da história da literatura já foi superado: linguagem é conteúdo.
Serviço
Caro Michele
Autor - Natalia Ginzburg
Editora - Cosac Naify
Tradução - Homero Freitas de Andrade
Posfácio - Vilma Arêas
Quanto - R$ 49 (190 págs.)
Léxico Familiar
Autor - Natalia Ginzburg
Editora - Cosac Naify
Tradução - Homero Freitas de Andrade
Posfácio - Ettone Finazzi-Agr
Quanto - R$ 49 (238 págs.)
A morte de seu pai foi um duro golpe para mim. Eu agora me sinto muito mais sozinha. Ele não me dava nenhum apoio, porque não se importava comigo. Não se importava nem mesmo com suas irmãs. Importava-se somente com você. E o afeto que lhe tinha não parecia dirigido a você, mas a outra pessoa que ele inventara e que não se parecia nada com você. Não sei explicar por que me sinto mais sozinha desde que morreu. Talvez porque tivéssemos lembranças comuns. Éramos os únicos no mundo a ter essas lembranças. Não costumávamos falar delas quando nos encontrávamos. Porém, agora percebo que não era necessário falar. Não eram lembranças felizes porque eu e seu pai nunca fomos muito felizes juntos. E mesmo que tenhamos sido felizes por breves momentos, tudo depois foi emporcalhado, pisado e revolvido. Mas não se amam apenas as lembranças felizes. A certa altura da vida, percebe-se que se amam as lembranças.
Fragmento de ''Caro Michele'', de Natalia Ginzburg


