Algo como estar num lugar que não é o seu.
Algo como estar num lugar que não é você.
Algo como estar onde você não é você.
Algo como existir num lugar que não existe.
Essa pode ser a sensação do leitor ao percorrer as páginas de ''O Esquizoide'', romance póstumo do escritor carioca Rodrigo de Souza Leão que acaba de ser lançado pela editora Record. Estar num lugar desconhecido dentro de si mesmo, confinado nos corredores mentais que se multiplicam num surto de esquizofrenia.
Rodrigo de Souza Leão morreu em 2 de julho de 2009 de ataque cardíaco, amarrado na cama de um hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro com 43 anos de idade. Dias antes ele havia solicitado a internação prevendo a chegada de um novo surto psicótico. Tinha conhecimento de causa. Assumidamente esquizofrênico paranóico, passou várias temporadas em hospitais e clínicas psiquiátricas. A primeira em 1989, quando tinha 23 anos. Comeu o pão que psiquiatras e enfermeiros amassaram até encontrar na literatura um porto seguro.
Misturando ficção e realidade, ''O Esquizoide'' relata seu primeiro surto e sua primeira internação. Traz o relato de um sujeito preso dentro de um surto paranóico, como se tivesse uma bomba dentro da própria cabeça prestes a explodir.
Tudo começa quando o sujeito, no meio de um dia normal de trabalho, começa a se sentir perseguido pelo chefe. Desesperado e descontrolado, foge do local e ganha as ruas. Por cada lugar que passa sente-se perseguido por alguém, por alguma coisa. Pressentindo que a bomba que carrega dentro da cabeça está prestes a explodir, empreende uma longa jornada em busca de ajuda. Família, escola, igreja, hospital, amigos, nada o consegue resgatar do delírio.
Os outros dois romances de Rodrigo de Souza Leão também se debruçam sobre o mesmo tema carregado de elementos autobiográficos. Tanto em ''Me Roubaram Uns Dias Contados'' (Record, 2010) como em ''Todos os Cachorros São Azuis'' (7 Letras, 2008) o narrador também está dentro de uma crise psicótica passando uma temporada num hospício.
O grande diferencial dos três romances está na linguagem utilizada em ''Todos os Cachorros São Azuis''. Nele o narrador acredita que seus problemas começaram quando engoliu um grilo na juventude. Ou quando teve um chip implantado em sua cabeça num momento de distração. Sua única lembrança afetiva está na figura de um cachorrinho de pelúcia azul que teve na infância e que, misteriosamente, desapareceu. Além de conviver com os loucos do local, em suas visões regulares conversa com os poetas franceses Arthur Rimbaud e Charles Baudelaire que também passam uma temporada no inferno.
Todo o enredo de ''Todos os Cachorros São Azuis'' se resume a um sujeito lutando contra a própria loucura. A linguagem que Souza Leão desenvolve como instrumento narrativo aproxima a escrita da esquizofrenia. Coloca as duas tão próximas que os limites são quase eliminados e nesse processo cria um tom revelador para a escrita.
Se uma das características básicas da esquizofrenia está na fragmentação, no estabelecimento de cisões da estrutura mental, a narrativa de ''Todos os Cachorros São Azuis'' reproduz justamente essa fragmentação, essas cisões. A alucinação é colocada como um componente do real dentro do discurso do narrador. Onde poderia se encontrar apenas dor e tormento, é possível encontrar doses de humor e ironia.
''Me Roubaram Uns Dias Contados'', por outro lado, seguem uma narrativa mais ordenada, mais voltada para o testemunho de uma mente num beco sem saída.
A literatura de Rodrigo de Souza Leão é o painel mais atual do encontro entre arte e os transtornos psicóticos. Uma referência obrigatória para a discussão das relações entre loucura e literatura no mundo contemporâneo. Algo como estar num lugar que não é você.
Eu só tinha uma luta: a luta contra a bomba. De certa forma o que era para me destruir era o que me mantinha vivo. Eu ainda continuava a lutar para sobreviver. Uma luta interior. Para não morrer em alguns segundos. Uma luta contra a realidade e a loucura. Talvez não soubesse ou não fosse mais importante, para mim, saber qual era a verdade. Às vezes a gente perde a razão. Perde os sentidos... Perde tudo, e o que fica pulsando é o velho coração na boca, controlando-se para não explodir. Para que toda resistência não caia por terra. Por isso digo que não vivo. Sou um sobrevivente.
(Fragmento de ''O Esquizoide'', de Rodrigo de Souza Leão)

SERVIÇO
O Esquizoide
Autor - Rodrigo de Souza Leão
Editora - Record
Páginas - 80
Quanto - R$ 19,00

mockup