LEITURA - O círculo do tempo
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de agosto de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
''Satolep'' é um romance que parecer ter sido escritor por um dedicado literato. Daqueles que cuidam da estrutura e da linguagem literária como um animal cuida de sua ninhada. Com todas as unhas, com todos os dentes. Curiosamente, não se trata de uma obra criada por um escritor tradicional e veterano, mas por um músico e compositor, o gaúcho Vitor Ramil.
''Satolep'', obra que levou 10 anos para ser concluída, é o segundo romance do autor. ''Pequod'' (Editora Artes e Ofícios, 1996), seu primeiro romance, está exilado dos catálogos das livrarias há um bom tempo. Mais conhecido como compositor, músico e cantor com sete CDs gravados, sua produção musical mais recente ''Satolep Sambatown'', realizada com a colaboração de Marcos Suzano, foi lançada em 2007.
Publicado pela editora Cosac Naify, ''Satolep'' narra a trajetória de Selbor, um fotógrafo que acaba de completar 30 anos e retorna à cidade de sua infância, um lugar chamado Satolep - anagrama de Pelotas, cidade natal do autor situada no interior do Rio Grande do Sul.
Entre visitar os pais e vagar pela cidade, o personagem faz a opção pelo vagar. Tanto pelo território geográfico externo como pelo território interior. Nesse processo cruza com figuras extremamente interessantes que passam a determinar suas decisões diante do passado, presente e futuro.
Esse processo assume maiores proporções quando Selbor encontra um manuscrito esquecido no banco da ferroviária da cidade. Lendo, a cada dia, uma página do manuscrito, percebe que todas as fotografias que realizou já foram descritas, com total exatidão, pelo autor do texto, um personagem chamado apenas de ''Rapaz''. Na verdade um garoto que realiza o mesmo caminho realizado por Selbor no passado: abandonar a cidade natal. Em outras palavras, numa inversão lógica, Selbor fotografa imagens do passado. O tempo e o espaço passado começam a anteceder o presente e, de certa forma, determinar o futuro.
O romance é formado por duas narrativas paralelas que acabam se cruzando em determinado momento. Numa delas, Vitor Ramil cria textos a partir de fotografias que retratam a cidade de Pelotas no início do século 20. São textos ficcionais construídos a partir de imagens reais. A outra narrativa é a voz de Selbor em sua experiência com duas realidades, a interior de seus pensamentos e a exterior da realidade presente diante das fotografias. Tudo acontece entre texto e imagem, numa estrutura circular e labiríntica. Uma estrutura de linguagem, que trafega com desenvoltura entre informação imagética e informação linguística, tão instigante quanto as idéias do lendário escritor curitibano Valêncio Xavier.
A seguir, Vitor Ramil fala um pouco sobre o intrincado ''Satolep'' e seu processo de elaboração.
''Satolep'' é um romance formado por duas narrativas paralelas. Elas foram criadas de maneira simultânea?
Comecei o livro pelos pequenos textos que acompanham as imagens. Minha idéia original era a de que ''Satolep'' se resumisse a isso, instantâneos literários para instantâneos fotográficos. Achei que seria uma forma original. Mas, a certa altura do trabalho, me estendi numa das pequenas histórias. Foi quando me veio a idéia de desenvolver um texto longo que costurasse os ''instantâneos''. Achei então que encontrara uma forma ainda mais original. O texto transformou-se num grande desafio formal. Situação que me estimula demais a escrever.
O livro se revela uma obra com uma construção intrincada. Como foi construído?
A chave inicial para fazer a amarração entre os instantâneos literários e fotográficos e o romance foi definir a profissão de Selbor, personagem central e narrador: ele seria um fotógrafo, autor daquelas fotos. Depois, definir o personagem do Rapaz: um visionário. As fotos são suas visões. Eu tinha já alguns pequenos textos escritos quando comecei o texto longo.
As várias referências literárias sutilmente espalhadas ao longo da trama são uma espécie de opção pelo lúdico?
O trabalho de escrever para as fotos - que são da cidade de Pelotas em 1922 - se deu de várias maneiras. Em alguns casos, para fundir ainda mais o texto longo e as fotos, associei passantes anônimos com figuras como Chaplin e Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa), ou seja, dei uma representação ''real'' a personagens fictícios, sendo que no texto há vários personagens reais como João Simões Lopes Neto, Francisco Santos e Lobo da Costa que viraram ficção. O texto que cita Bernardo Soares é o trecho de uma carta que está sendo escrita para Mário de Sá-Carneiro. Isso é apenas sugerido. Já o personagem Cubano, fictício, é uma sutil referência a Alejo Carpentier, possível autor da frase ''o frio geometriza as coisas''. O livro é cheio de ''entradas'' como essas. Foi um trabalho muito lúdico e prazeroso.
No romance, a cidade de Satolep assume tanto uma condição física como uma condição psicológica. Como foi o processo de transformar uma cidade em personagem?
O processo tem a ver com o ''nascer leva tempo''. Moro em Pelotas, voltei para cá mais ou menos com a idade com que Selbor voltou para Satolep. Mas muito antes disso, desde a minha infância, essa cidade (Satolep-Pelotas) existe no meu imaginário. Pelotas é o lugar mais perto de Satolep que existe. Estando aqui, volta e meia estou em Satolep. Vivo intensamente meus momentos breves e descontínuos em Satolep, guardando sempre minhas impressões de viagem como quem traz souvenires. De modo que Satolep é uma cidade vivida tanto quanto imaginada. Acredito que venha disso parte de sua força como ''personagem''. A outra parte deve ser o aproveitamento de seu aspecto físico como sugestão formal para o texto. Isso se dá na adoção de valores estéticos mais gerais como concisão, simetria, assimetria, rigor ou leveza, e também em detalhes como no uso das metáforas, que, transcendendo o simples efeito poético, a mera descrição passageira, são incorporadas ao ''texto-cidade'' como personagens.
No livro há uma eliminação de fronteiras entre o passado e presente, algo que provoca uma sensação labiríntica no leitor. Havia uma intenção deliberada nesse sentido?
Havia intenção de eliminar as fronteiras, não de provocar a sensação labiríntica. A idéia era a de círculo, mas o labirinto parece ser da condição humana, sempre aparece. Quantos labirintos haverá em um círculo? ''Satolep'' tem mesmo muitos caminhos a serem seguidos. O tempo - talvez o maior dos labirintos - como ''personagem'' aparece quando decido, como autor do texto, trocar de posição no tempo com o autor das fotos. Nisso a noção tradicional de tempo é subvertida, ficção e realidade misturam seus papéis. A impossibilidade de que os textos sobre as fotos tivessem sido escritos antes de as fotos serem tiradas passou a ser um dos temas do livro, um tema tratado um pouco ''a la'' Edgar Allan Poe.
Satolep é uma cidade imaginária?
Satolep é uma cidade interna minha e, em grande parte, do personagem Selbor. Uma vez que no interno o tempo não existe - ou todos os tempos existem ao mesmo tempo - criei um não-tempo, um tempo sincrônico, um tempo de tempos, ou seja lá o que for, fato que redimensionou a trama e me deu uma grande liberdade para escrever. Livre no tempo, consegui, por exemplo, promover encontros de pessoas como não teriam acontecido na realidade. Ao escrever, tratei de não ficar preso ao período retratado nas fotos. Para pôr em movimento aquelas imagens de um tempo definido, a sutileza foi fundamental.
SERVIÇO
- Satolep
Autor - Vitor Ramil
Editora - Cosac Naify
Páginas - 288 (capa dura)
Quanto - R$ 39


