LEITURA - O cheiro do oriente
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de maio de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Encontrar nas livrarias brasileiras romances de escritores de língua árabe não é algo comum. Para o leitor curioso, torna-se difícil conhecer a literatura criada por autores de países banhados pela cultura islâmica.
Dois romances que acabam de ser lançados podem saciar essa curiosidade sobre a produção contemporânea de língua árabe: ''Tempo de Migrar Para o Norte'', do autor sudanês Taueb Salih, e ''Meu Nome é Vermelho'', do escritor turco Orhan Pamuk. Ambos trabalham, cada um a seu modo, sobre a confluência entre oriente e ocidente - seja através de pessoas trafegando entre os dois mundos, ou através da influência mútua de estéticas e idéias.
O narrador de ''Tempo de Migrar Para o Norte'' é um homem que, após passar alguns anos na Europa, volta para seu pequeno vilarejo do interior do Sudão. A única mudança ocorrida no lugar, durante sua ausência, é a presença de um novo habitante enigmático chamado Mustafa. Ao entrar em contato com esse novo habitante, descobre a história de um homem incomum.
Lentamente o narrador descobre a história de Mustafa, que também passou uma temporada na Europa. Uma história imersa em brumas, onde o desejo se aproxima do diabólico. Prodígio desde a infância, Mustafa parte para estudar na Inglaterra onde torna-se um intelectual influente. Sedutor voraz, leva ao desespero as mulheres com quem se relaciona. Acusado de assassinar a esposa e provocar o suicídio de várias namoradas, volta a seu país para viver como agricultor anônimo.
Publicado pela Editora Planeta, ''Tempo de Migrar Para o Norte'' num primeiro momento aponta um homem exilado de sua cultura e as consequências desse processo. Num segundo momento aponta para um homem exilado de sua própria existência e seus sombrios efeitos. Um relato de forte impacto, onde ninguém sai ileso, nem o narrador, nem o leitor.
Trata-se do primeiro livro de Tayeb Salih publicado no Brasil. Apesar de viver na Inglaterra há anos, elege o Sudão (país africano islâmico de língua árabe cortado pelo rio Nilo) como pano de fundo. Um cultura onde tradições exercem seu poder mesmo em épocas de transformações.
Lançado pela Editora Companhia das Letras ''Meu Nome é Vermelho'' é um romance histórico com elementos policiais ambientado na cidade de Istambul do século 16. A trama tem início quando um sultão encomenda a seus artistas um livro que enaltecesse as belezas e riquezas do Império Otomano utilizando técnicas renascentistas italianas em florescimento na época. Uma difícil tarefa que envolve o misterioso assassinato de um dos artistas.
O destaque do romance está na estrutura narrativa utilizada por Orhan Pamuk. A história é contada através de várias vozes, dezenove delas, com os personagens apresentando fragmentos da trama a partir do próprio ponto de vista. Entre os narradores estão um pigmento de tinta, uma cachorro e um cadáver. Isso faz com que o enredo fique repleto de indas e vindas, erguendo uma intrincada atmosfera.
''Meu Nome é Vermelho'' é o segundo livro do escritor publicado no Brasil - Cidade Branca foi lançado em 1993 pela Editora Record. Detentor de um estilo detalhista, Orhan Pamuk é considerado um dos grandes nomes da literatura turca da atualidade.
Serviço:
- ''Tempo de Migrar Para o Norte'' de Tayeb Salih, Editora Planeta, tradução do árabe de Safa Abou-Chahla Jubran, 152 páginas, R$ 29,90.
- ''Meu Nome é Vermelho'', de Orhan Pamuk, Companhia das Letras, tradução de Eduardo Brandão, 536 páginas, 54,00


