LEITURA - O céu dentro da cabeça
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de novembro de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Todo mundo corre atrás de alguma coisa. Todos procuram alguma coisa a mais. Seja um grande amor, uma enorme herança, um emprego maravilhoso ou uma fama brilhante. Nessa corrida, ambição e desejo se convertem no combustível para querer mais.
Existe diferença entre não correr atrás de desejos e ambições, e não se sentir um fracasso por não correr mais atrás de ambições e desejos. Assim como existe diferença entre correr atrás de alguma coisa e correr atrás da coisa errada.
A grande epifania estaria em encontrar aquilo que não era procurado. Justamente aquilo que não era desejado, que não era ambicionado. Esse é o sentimento que o escritor norte-americano Michael Cunningham expressa em seu novo romance, "A Rainha da Neve", que acaba de ser lançado pela editora Bertrand Brasil.
Narra a história de dois irmãos, Tyler e Barret, que dividem um apartamento em Nova Iorque. Tyler, com quarenta e poucos anos, ganha a vida tocando em bares enquanto espera que suas composições façam sucesso. Barret, com trinta e poucos anos, trabalha numa loja de roupas. Tyler morre de amores pela namorada Beth, que está tentando vencer um câncer grave. Barret, gay, vive pulando de galho em galho sonhando com o homem de sua vida.
Ao lado dos irmãos, duas mulheres fecham um círculo de amizade. Liz, com cinquenta e poucos anos, dona da loja em que Barret trabalha, passa os dias conquistando garotos de vinte e poucos anos. E Beth, namorada de Tyler e sócia da loja de Liz, que passa os dias tentando entender por que está próxima da morte. A irmandade entre os quatro cria uma espécie de família estabelecida por afinidades.
A transcendência, mesmo que discreta, é um dos elementos que permeia toda narrativa. De um lado está Tyler, que deseja obter alguma visão para compor suas músicas, e, para isso, faz o uso de drogas, especialmente cocaína. De outro lado está Barret, que não deseja nenhum tipo de visão, mas um belo dia, caminhando pelo Central Park, experimenta algo inesperado. Vê uma luz provinda do céu tocar sua pessoa.
O jogo é simples. Aquele que busca a experiência de transcendência não a experimenta, e aquele que não a busca acaba por experimentá-la. Um jogo que segue o mesmo caminho dos desejos e ambições: quem procura nem sempre acha, ou pelo menos, não encontra onde acreditava encontrar.
Todas as personagens de "A Rainha da Neve" são figuras comuns que habitam um cotidiano ordinário. Até mesmo as epifanias nada possuem de extraordinário. Diferentemente de outros romances de Michael Cunningham, o leitor encontra alguma complexidade das personagens apenas a partir da metade do livro. Optando por um ritmo lento, o autor adia as questões mais representativas propostas pelo romance. A narrativa acompanha o lento processo interior da cada personagem.
Nascido em 1952 e autor de sete romances, Michael Cunnigham ficou mais conhecido após a publicação de "As Horas" (Companhia das Letras, 1999), obra que ganhou o prêmio Pulitzer e foi transformada em filme por Stephen Daldry. Seus outros romances publicados no Brasil são: "Uma Casa no Fim do Mundo" (1994), "Laços de Sangue" (1997), "Dias Exemplares" (2006) e "Ao Anoitecer" (2011).
Na literatura de Cunningham alguns elementos da contemporaneidade são marcantes. Uma deles está na constituição de famílias através de afinidades e não apenas por parentesco e laços de sangue. Outro está em abordar o homossexualismo não por via da militância, mas como algo que faz parte inerente da sociedade, das famílias, das amizades, das relações cotidianas de convivência.
"A Rainha da Neve" possui uma aura de desesperança e desespero que, de maneira paradoxal, possui algo de esperança e otimismo. As personagens acalentam a possibilidade da juventude se prolongar ao longo da idade adulta e, quem sabe, até através da velhice. Mas, no íntimo, percebem que tudo isso não passa de um engodo impulsionado pelo autoengano. A juventude é para os jovens que ainda possuem energia suficiente para fazer do mundo um lugar improvável.
Em "A Rainha da Neve", a transcendência seria a experiência daqueles que encontram algo onde nunca haviam procurado. E que o céu não estaria no espaço sideral, anos luz das mãos. O céu estaria aqui, dentro da cabeça.
Serviço:
"A Rainha da Neve"
Autor Michael Cunnigham
Editora Bertrand Brasil
Tradução Regina Lyra
Páginas 252
Quanto R$ 35


