LEITURA - O céu das palavras
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Marcos Losnak <br> <br> Especial para a Folha2 
Em sua nova obra, ''Roça Barroca'', a paranaense Josely Vianna Baptista une as duas pontas de seu trabalho como poeta e como tradutora. Lançado pela editora Cosac Naify, o livro chega às livrarias no começo de dezembro reunindo num mesmo volume sua tradução do poema cosmogônico dos indígenas Mbyá-Guarani e poemas de sua autoria criados como diálogo com a cultura ameríndia.
O grande destaque da obra está na tradução, a primeira realizada para língua portuguesa, dos cantos de tradição oral sobre a criação do mundo segundo a mitologia dos Mbyá-Guarani - etnia pertencente a família linguística tupi-guarani. Os três cantos que integram ''Roça Barroca'' (''Os Primitivos Ritos do Colibri'', ''A Fonte da Fala'' e ''A Primeira Terra'') narram com uma beleza peculiar a criação do mundo, dos homens e dos animais através da voz dos deuses.
É possível encontrar uma série de consonâncias com a mitologia judaico-cristã da origem do mundo. Os elementos da floresta ocupam lugar de destaque na ideia do universo como Terra sem Mal. A seguir Josely Vianna Baptista fala sobre ''Roça Barroca''.
Quem são os Mbyá-Guarani?
Os Mbyá são uma etnia pertencente a um subgrupo da grande família linguística tupi-guarani. Segundo a tradição oral, os Mbyá surgiram junto com o início da Terra. Vivem em comunidades no Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil. No Brasil principalmente nos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
E no sentido mítico?
Uma das crenças centrais da cultura dos Mbyá-Guarani é a da Terra sem Mal (''yvy marã'ey'', que significa literalmente ''terra que não se estraga'', ''terra que não se corrompe''). Mas há interpretações diversas do mito, que a veem também ora como um paraíso ora como solo virgem, acepção adotada pelo antropólogo Bartomeu Melià, para quem as migrações em busca da Terra sem Mal possuem motivação mítica, mas também estão estreitamente ligadas à procura de novas terras onde estabelecer, ainda que provisoriamente, aldeias e roças. Atualmente, com a drástica diminuição de suas florestas, os Mbyá vem enfrentando grandes dificuldades.
Para traduzir a cosmogonia dos Mbyá-Guarani você se baseou na coleta realizada pelo pesquisador León Cadogan na década de 40. Além dessa fonte, você realizou pesquisas em aldeias?
Desde os anos 80, quando cursei Língua e Cultura Guarani na Universidade Federal do Paraná, passei a fazer minhas pesquisas na área. E mais recentemente, antes de começar a escrever ''Roça Barroca'', fiz algumas viagens, reais e imaginárias, a comunidades Mbyá do Paraná e da região vizinha do Guairá, a fim de conhecer um pouco seu modo de vida, os rituais remanescentes, sua paisagem. Esse meu percurso foi uma espécie de viagem de iniciação, e se inspirou, simbolicamente, na busca da Terra sem Mal. A principal comunidade em que pesquisei, e na qual passei mais tempo, foi a de Ocoy, em São Miguel do Iguaçu.
Como foi essa experiência?
Numa das viagens eu levava em mãos os originais dos cantos sagrados dos Mbyá-Guarani e um esboço da tradução. Entreguei-os a Teodoro Tupã Alves, uma importante liderança indígena, ex-cacique, na época professor na aldeia de Ocoy. Ele começou a ''cantar'' sua versão do primeiro canto, parando, por vezes, para relembrar alguma passagem, e consultando o manuscrito com genuíno interesse. Depois me levou até o líder religioso da aldeia. Logo estávamos rodeados de moradores, que comentavam passagens dos cantos, discordavam aqui e ali do registro, aportavam e explicavam variantes, numa reunião memorável de revivificação do mito.
Tudo isso contribuiu para o processo de tradução?
O contato com as comunidades foi super importante, no sentido amplo, e poder gravar Teodoro entoando os cantos em mbyá permitiu que eu percebesse em minúcias suas modulações e tessituras sonoras, tirasse dúvidas e conversasse sobre questões controversas. Fiz um estudo da estrutura das palavras em mbyá após ter lido atentamente a versão para o espanhol feita por Cadogan. Cotejada com a versão para o espanhol, minha tradução apresenta principalmente variações oriundas de um partido tradutório que prezou a materialidade quase ideogramática da língua indígena, em vez de acatar a opção por vezes parafrástica do castelhano. O cuidado com a forma transformou-se, então, num exercício escritural em que tentei infundir no português um pouco do sussurro ancestral da língua guarani. O resultado é radicalmente diferente.
Na cosmogonia dos Mbyá-Guarani, alma e palavra são elementos inseparáveis, existe até o termo palavras-almas. O que seria exatamente as palavras-almas?
Elas contêm o duplo conceito de ''expressar ideias'' e ''porção divina da alma''. Foi essa descoberta intrigante que levou Cadogan a debruçar-se, anos a fio, no estudo da religião guarani. Num dos cantos sagrados que traduzi para ''Roça Barroca'', o deus supremo faz a fonte da fala aflorar de si e fluir por seu corpo, tornando-a sagrada, criando a palavra-alma de origem divina. Depois desdobra de si os homens e as mulheres que iriam refletir sua divindade, os pais e mães da palavra inspirada que insuflará a alma em seus numerosos filhos futuros. Melià afirma que a união sexual é a ocasião ''para que se dê esse ato poético mediante o qual a palavra sonhada pelo pai é comunicada à mãe, que desse modo engravida dessa mesma palavra''. O conceito de palavra-alma é central na mitologia dos Mbyá, e também muito complexo.
Uma parte de ''Roça Barroca'' é formada por poemas de sua autoria que dialogam com os textos traduzidos. O que eles representam?
Guardo na memória de infância algumas imagens que provavelmente me levaram a enveredar por aí, como a descoberta de uma comunidade isolada de guaranis numa ilha fluvial. Lembro-me até hoje do arenoso chão batido daquela picada estreita por onde andamos até avistar as palhoças e ouvir aquela algaravia de sons nunca dantes escutados. Tempos depois um velho índio, provavelmente um pajé, passou uns tempos vendendo ervas que espalhava sobre um pedaço de couro, bem na esquina de minha casa no norte do Paraná. Aquilo representava um mundo de mistérios para uma menina que via Os Flintstones na TV e espiava as fotos da revista Life e, mais tarde, lia na rede romances franceses, russos etc. Eu estava num filme. Foram imantações, maravilhas que ''pararam para ser ventura'', parafraseando o Leminski. ''Roça Barroca'', então, é um pequeno gesto para aproximar nossa poesia da poesia ameríndia, um solo onde essas línguas e linguagens dialogam. Nele procuro uma voz que pulse entre a dicção culta e a popular, o ponto de inflexão de várias perspectivas e linguagens assumidas como vozes poéticas dialogantes. Aqui a prospecção poética abre-se ao livre entrecruzamento do mito, das narrativas, da memória, das dispersões, e os poemas procuram dialogar com a sofisticada trama sonora dos cantos indígenas.
O que você acha que a tradicional literatura oral dos povos indígenas tem a dizer à literatura contemporânea e à população urbana?
Bem, há muita coisa a ser revelada ainda, acredito, mas pelo que já conhecemos dá para ver que há esplêndidas florestas a serem exploradas, tanto as florestas encantadas da linguagem quanto as outras, que todo mundo precisa ajudar a salvar. Lembro aqui de passagem uma tradição dos Mbyá-Guarani: a reciprocidade. Eles acreditam que para que as árvores produzam bons frutos elas têm de ser plantadas por outros - ou seja, deixadas para quem está vindo pela floresta.
Serviço:
- Roça Barroca
Autor - Josely Vianna Baptista
Editora - Cosac Naify
Prefácio - Augusto Roa Bastos
Posfáciot - Francisco Faria
Páginas - 154 - edição bilíngue guarani-português
Quanto - R$ 43
Fragmento:
Nosso primeiro Pai, sumo, supremo
a sós foi desdobrando a si mesmo
do caos obscuro do começo.
As celestes plantas dos pés,
o breve arco do assento,
a sós foi desdobrando, ereto,
do caos obscuro do começo.
O lume de seus olhos-de-céu,
os divinos ouvidos,
as palmas celestes arvorando o cetro,
as mãos celestes com os brotos floridos
abriu ¥amandui, desabrochando
do caos obscuro do começo.
Sobre a fronte do deus
as flores do cocar
- olhos de orvalho.
Entre as corolas do cocar sagrado
o Colibri, pássaro original,
pairava, esvoaçante.
Nosso primeiro Pai
foi seu corpo divino desdobrando
em meio aos ventos primitivos:
ainda sem ter lume de seu leito terreno,
ainda sem ter lume
de seus futuros Céu e Terra
- que eram desde a origem -,
cobria-lhe a boca de rocio o Colibri;
o Colibri lhe dava alento
com alimentos do céu.
Nosso Pai ¥amandu, o primeiro,
antes de desdobrar de si seu céu
não se viu entre a treva,
ainda que o sol não existisse.
A luz de seu próprio coração o revelava;
seu sol era
o saber contido em seu ser-de-céu.
(Fragmento de ''Canto 1 - Os Primitivos Ritos do Colibri'', que integra ''Roça Barroca'' de Josely Vianna Baptista)


