Andando pelas ruas do centro da cidade você tromba com um mendigo sentado na sarjeta. Cabelos desgrenhados, roupa esfarrapada, mas um sorriso nos lábios. Você passa por ele, tentando disfarçar, mas ele agarra seu braço e diz: "Sou um escritor de ficção científica desempregado que acaba de chegar das colônias de Urkh 24. Por favor, por piedade, preciso de drahleks para comer e recarregar meus androides."
Você pode até pensar que o sujeito é pirado, mas vai ficar com suas palavras na cabeça por um bom tempo. Até perceber que o sujeito caiu das páginas de "O Fundo do Céu", livro do escritor argentino Rodrigo Fresán lançado pela editora Cosac Naify.
Embora "O Fundo do Céu" tenha toda a cara de um romance de ficção científica, ele não se encaixa exatamente no gênero. O próprio autor afirma que o livro não se trata de "um romance de ficção científica, mas que se alimenta da ficção científica". Como em algumas vertentes da literatura contemporânea, o gênero assume o papel de personagem.
Mesmo trabalhando com centenas de referências de obras e mestres do gênero, "O Fundo do Céu" rompe com uma das principais características da ficção cientifica, a de imaginar o futuro. Em sua narrativa Rodrigo Fresán faz exatamente o contrário: imagina o passado.
Sem uma trama propriamente dita, a obra é narrada por três vozes, três pessoas atreladas à paixão pela ficção científica. Dois garotos e uma garota num triângulo amoroso impossível que se estende ao longo de décadas e décadas. Cada um, ao seu modo, visita o próprio passado como se visitassem um planeta de outra galáxia.
Há até uma analogia entre amor e ficção científica proposta por um dos personagens: "A ficção científica e o amor nunca se deram muito bem. Ou talvez sim: pois, de uma maneira ou outra, todos somos abduzidos pelo amor, essa força extraterrestre e sempre diferente cuja linguagem tentamos, em vão, compreender."
É a garota que apresenta a hipótese mais curiosa. Ela crê que habitantes de outro planeta ameaçado de extinção escolheram a Terra para estabelecer moradia. E elegeram algumas pessoas como antenas para saber o que acontece aqui. O projeto dos alienígenas é dizimar os humanos e ocupar o planeta. Mas não querem destruir o planeta com as próprias mãos. Querem que próprios homens realizem tal tarefa.
O detalhe é que os extraterrestres se apaixonam pela espécie humana, se encantam com sua capacidade de criar narrativas, inventar histórias. Assim, os alienígenas que tanto queriam que o planeta explodisse, começam a interferir toda vez que os homens colocam o planeta próximo do fim. Nesse sentido o século 20 seria simplesmente, com todas as guerras e tragédias, uma sucessão de fins do mundo sucessivamente adiados por mãos externas.
Esse jogo faz da criatividade humana, bem como sua capacidade de fantasia, no maior patrimônio do planeta. E a questão não é mais as múltiplas possibilidades de passado e de futuro, mas a necessidade de um presente alternativo. Até chegar a hipótese de que o homem não é mais o lobo do homem como no passado - o homem se tornou o extraterrestre do homem.
Rodrigo Fresán nasceu em Buenos Aires em 1963. Autor de nove romances, reside em Barcelona desde 1999, onde atua como jornalista e tradutor. Seus livros procuram estabelecer conexões entre linguagens, experimentando novas soluções narrativas.

SERVIÇO
"O Fundo do Céu"
Autor – Rodrigo Fresán
Editora – Cosac Naify
Tradução – Antônio Xerxenesky
Páginas – 352
Quanto – R$ 39

Falo com o idioma das liturgias de seres distantes. Penso como pensam aqueles que , se conhecêssemos, passaríamos a idolatrar como deuses. Mas – isso é interessante – foram eles que nos idolatraram, que acreditaram em nós. Quando já não lhes restava nada a fazer, quando alcançaram a perfeição absoluta, aos deuses só restaram a distração e o consolo de se maravilhar perante as imprevisíveis imperfeições dos outros. Toda perfeição é igual, idêntica, sem surpresas. Por outro lado, há tantas maneiras divertidas e interessantes de cometer erros... Eu me lembro dos filmes que voam quando era garoto. Ulisses, Jasão e os Argonautas... As partes que eu mais gostava não eram aquelas nas quais os aventureiros enfrentavam perigos e monstros, mas sim os interlúdios quase plácidos e olímpicos onde se viam os deuses, com suas residências nas alturas, contemplando tudo, jogando xadrez com figuras que representavam os heróis e os vilões, intervindo na trama quando achavam pertinente, entretidos, passando o tempo, enquanto aqui em baixo, na Terra, os homens levavam suas promessas e prestavam oferendas sem ao menos suspeitar que a única coisa que os deuses queriam não eram suas riquezas, e sim suas histórias, suas imprevisíveis histórias. E que os deuses acreditavam nelas, e rezavam para que nunca chegassem ao fim. (Fragmento de "O Fundo do Céu" de Rodrigo Fresán)
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