Imagine a lady Virginia Woolf, com toda sua nobre educação aristocrática, batendo boca com a empregada. As duas, aos berros, brigando pelos motivos mais pueris do cotidiano de uma casa. Coisas como uma xícara de chá esquecida sobre a mesa. Uma chamando a outra de rabugenta, batendo porta, pisando duro.
Uma sempre ameaçando pedir demissão. A outra sempre ameaçando demitir. Uma sucessão de barracos que se estenderam por dezoito anos, tempo em que Nelly trabalhou como cozinheira de Virginia.
Essa informação abre a biografia da romancista inglesa escrita pelo professor austríaco Herbert Marder que está chegando às livrarias lançada pela editora Cosac Naify. Esse tipo de informação logo nas primeiras páginas de ''Virginia Woolf - A Medida da Vida'' pode dar a ideia de uma biografia inundada de fofocas e dados picantes. Mas o livro é exatamente o contrário. Sobre a vida sexual de Virginia, por exemplo, o autor utiliza apenas, literalmente, uma única linha em mais de 500 páginas.
''Virginia Woolf - A Medida da Vida'' não é uma biografia padrão. Herbert Marder se propõe a reconstituir apenas os últimos dez anos da vida da escritora. Nada mais. Exatamente os anos em que criou suas obras-primas e viveu os maiores tumultos mentais que poderia suportar.
A grande base das informações apresentadas pelo biógrafo é oriunda dos diários e cartas de Virginia Woolf (1882 -1941). A escritora manteve fielmente um diário ao longo de toda a vida. Eram extremamente raros os dias em que não enchia as páginas do caderno. Tinha uma verdadeira compulsão pela escrita, além de uma boa dose disciplina. Registrou praticamente tudo que viveu, pensou, sentiu.
''Virginia Woolf - A Medida da Vida'' não é exatamente uma biografia dirigida ao leitor que nunca ouvir falar de Virginia Woolf, ou nunca entrou em contato com sua literatura. Esse leitor fatalmente ficará mais perdido que cego em tiroteio pela quilométrica quantidade de referências abertas. Ele não encontrará, por exemplo, dados básicos como a data de nascimento da biografada.
O livro é claramente uma biografia voltada para iniciados. Direcionada para fãs de carteirinha, admiradores e estudiosos da literatura de Virginia. A partir das anotações dos diários e cartas, Herbert Marcer reconstitui o cotidiano, o estado de espírito e todo o processo de criação dos principais romances de Woolf. E joga luz sobre a doença mental que a levou cometer suicídio em 1941.
A própria Virginia definia suas regulares crises como dilacerantes. Em suas palavras, era como se seu cérebro explodisse ''numa chuva de fogos de artifício'' em dores descomunais. A tese proposta por de Herbert Marder é de que a loucura não derrotou Woolf. Pelo contrário, ela teria lutado contra a loucura ao longo de toda a existência e realizou tudo aquilo que desejava realizar.
Nos dias de hoje ela seria diagnosticada como maníaco-depressiva. Receberia prescrição médica, tomaria a medicação indicada regularmente e levaria uma vida sem grandes explosões de fogos de artifícios dentro da cabeça. Mas na época em que viveu, as coisas funcionavam de outra maneira.
''Se eu não sofresse tanto, não poderia ser feliz.'' Essa frase que Virginia anotou em seu diário é uma das primeiras frases de ''Virginia Woolf - A Medida da Vida''. Também é repetida por Marder nas últimas linhas do livro. Essa é a chave da obra.

Serviço:
- Virginia Woolf - A Medida da Vida
Autor - Herbert Marder
Editora - Cosac Naify
Tradução - Leonardo Fróes
Páginas - 584
Quanto - R$ 77

Fragmento:
Para controlar os espectros da meia-noite, precisava de toda a sua esperteza; a escrita, que era sua maior defesa contra a depressão suicida, também podia provocar a doença, e isso lhe deixava pouquíssino espaço de manobra. Seu sistema se rebelava, se por acaso ela trabalhasse alguns minutos amais, e o vazio se abria à sua frente, se se refreasse de escrever. Para a dor que sentia, não achava uma palavra - ''dor de cabeça'' era suave demais para transmitir a violência do ataque, que lhe dava a ideia de ''ratos com raiva roendo a nuca''. Durante todo o verão ela travou uma batalha tensa, imóvel, quase petrifica em estátua. Ora amaldiçoava o livro, ora sua cabeça confusa, e continuas corrigindo, subdividindo seu tempo, escrevendo por meia hora, se não conseguisse por uma; às vezes, viu-se forçada a limitar seu trabalho a período de dez minutos. O mundo girava muito lentamente.
(Fragmento de ''Virginia Woolf -A Media da Vida'' de Herbert Marder)

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