LEITURA - O casulo da infância
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de outubro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Após a Segunda Guerra Mundial a literatura européia foi inundada por romances de guerra. Escritores dos mais variados países elegeram os dramas do conflito como tema essencial de suas histórias.
Nessa época o escritor italiano Italo Calvino (1923 - 1985) tinha pouco mais de vinte anos e dava início em sua aventura literária. O movimento neo-realismo, estava a todo vapor na Itália. Nesse contexto, Calvino escreveu seu primeiro romance, ''A Trilha dos Ninhos de Aranha'', obra que acaba de ser publicada no Brasil pela Companhia das Letras.
Trata-se da única obra do escritor em que a narrativa tem os dois pés na realidade. Em seus livros posteriores, a imaginação e a estrutura fabular ocupariam o lugar da realidade e passariam a ser uma das grandes características de sua literatura.
''A Trilha dos Ninhos de Aranha'', publicado originalmente em 1947, retrata a batalha dos rebeldes italianos contra os fascistas do próprio país e contra a invasão do exército alemão. Tudo a partir da ótica de Pin, um pobre garoto de rua. O que seria um romance engajado, torna-se um retrato angustiado de como o mundo dos adultos pode ser incompreensível, mesmo apesar das montanhas de conceitos e princípios.
Pin é um garoto que abandonou a infância antes de vivê-la. Residindo num beco da periferia, sem pai nem mãe, frequenta tabernas onde operários e vagabundos se reúnem. Morando com a irmã mais velha, a cultuada prostituta do bairro, vive no mundo dos adultos e realiza todo esforço para entendê-lo. Mas nunca consegue.
Procurando ser respeitado pelos homens das tabernas, que vivem interessados em sua irmã, Pin realiza um roubo e acaba na cadeia. Na prisão, conhece um revolucionário que o ajuda numa fuga. Vagando sozinho pelas montanhas que cercam a cidade, o garoto é adotado por um grupo de ''partigiani'' (membros de guerrilhas que lutavam contra o regime fascista italiano e contra as forças da ocupação alemã). Transforma-se numa espécie de mascote com tons de bobo da corte.
Calvino reúne nesse grupo um bando de sujeitos esquisitos, desajustados, que não sabem bem o que estão fazendo na guerrilha. O ideológico vaga como cachorro perdido pelos acampamentos procurando algum sentido. Pin, que possui o dom de provocar os adultos justamente por não conseguir entendê-los, vive entre a admiração e o desprezo por esses homens.
Convivendo com os ''partigiani'', o garoto não entende porque eles matam aqueles que são chamados de inimigos. Como também não consegue explicações para entender porque o inimigo assassina os ''partigiani''. Em sua visão, ''os adultos são uma raça ambígua e traidora, não têm aquela seriedade terrível das brincadeiras, própria dos garotos, e, no entanto, também têm lá suas brincadeiras, cada vez mais sérias, uma brincadeira dentro da outra, e nunca se consegue entender qual é a verdadeira''. Além disso, não compreende o febril interesse que os homens possuem em relação as mulheres, mesmo sabendo da existência dos desejos.
Pin não se encaixa no mundo adulto e ao mesmo tempo não possui a infância para se abrigar. Sua intenção é sentir-se parte de um processo de socialização, mas as relações que vive são sempre tênues. Resta-lhe apenas o isolamento interno. E nesse isolamento consegue ver a realidade, e a guerra, de modo frio e angustiante.
O ruído narrativo de ''A Trilha dos Ninhos de Aranha'' aparece num único capítulo onde o autor insere uma séria de considerações ideológicas sobre a revolução e os ideais socialistas. Trata-se da única visão adulta, e devidamente engajada, presente no romance. O próprio Calvino considerava tal capítulo equivocado, mas nas sucessivas edições optou por mantê-lo por acreditar que fazia sentido quando foi escrito, no ímpeto da juventude. Em outras palavras, ''A Trilha dos Ninhos de Aranha'' pode ser considerado um interessante retrato da literatura de Italo Calvino quando jovem.
Serviço:
''A Trilha dos Ninhos de Aranha'' de Italo Calvino, Editora Companhia das Letras, tradução de Roberta Barni, 192 páginas, R$ 31,00.


