De um lado o mundo caótico se desmanchando em ruínas. Aquele mundo carregado de brutalidade e completamente desumanizado.
De outro lado o mundo sutil se inundando de delicadezas. Aquele mundo silencioso da beleza dos pequenos detalhes.
Esses dois mundos, como as duas margens do rio da linguagem, estão presentes nos dois novos livros do Ademir Assunção lançados simultaneamente pela editora Patuá. "Pig Brother" e "Até Nenhum Lugar" são as primeiras obras publicadas pelo poeta após receber o Prêmio Jabuti de 2013 com "A Voz do Ventríloquo" (Demônio Negro, 2012).
"Pig Brother" é um longo poema narrativo dividido em 66 cantos. Descreve, através de imagens, um mundo devastado que remete ao lendário universo Blade Runner. Mas não se trata de um futuro imaginário, mas um futuro aqui e agora.
As personagens dos versos passeiam pela névoa que cobre o mundo urbano com todo tipo de brutalidades. As descaradas e as camufladas. O tipo de brutalidade de um desconhecido que dispara um revólver visível contra a cabeça de um transeunte qualquer. O tipo de brutalidade de uma grande corporação econômica que esmaga com um martelo invisível a cabeça de pessoas comuns.
A tragédia anunciada de um mundo desprovido de sentido, e germinado em meio ao caos, adquire um caráter simbólico de sons e cores assombradas. A imaginação poética de "Pig Brother extravasa conceitos e aponta para uma estranheza líquida que escorre pelos buracos da realidade.
"Até Nenhum Lugar" é formado por 80 poemas breves e haicais que retratam percepções dos detalhes do mundo e da vida. Parte de imagens ou situações do cotidiano para compor um sentido que vai além da simples contemplação. Escritos ao longo dos últimos 30 anos, os versos desenham uma interpretação daquilo que os olhos captam como surpreendente.
Ademir Assunção nasceu em 1961, na cidade paulista de Araraquara. Viveu em Londrina ao longo da década de 1980, onde atuou como jornalista. Há mais de duas décadas residindo em São Paulo, é autor de "LSD Nô" (1994), "A Máquina Peluda" (1997), "Zona Branca" (2001), "Adorável Criatura Frankenstein" (2003) e "Faróis do Caos" (2012).

Serviço:
"Pig Brother"Autor – Ademir Assunção
Editora – Patuá
Páginas – 136
Quanto – R$ 37

"Até Nenhum Lugar"
Autor – Ademir Assunção
Editora – Patuá
Posfácio – Amador Ribeiro Neto
Páginas – 100
Quanto – R$ 28

(...) Pios de corujas anestesiam as feridas da tarde. Corpos embalados em sacos de lona são lançados ao mar: comida para peixes, matéria humana em decomposição, lixo biodegradável. "Há uma certa poesia no crânio esfacelado e os miolos salpicados na parede branca" – bradam os extremistas do Capital e dos mísseis teleguiados. A dança dos petrodólares excita o Mercado Futuro. pessoas que não mais existem festejam o solstício financeiro. Pórticos destruídos, ônibus em chamas, Fraturas metálicas & almas carbonizadas – apenas imprecisões irrelevantes das guerras cirúrgicas. God save the President. Mac Death contempla girassóis lisérgicos. Mister Morfina observa o lance de dados viciados no cassino global. O sangue de Cristo é servido em taças de ouro. Inocentes alimentam leões de mármore falso. O sol despenca do céu de madeira. (...) (De "Pig Brother", de Ademir Assunção)
alguém explique como persiste uma memória tão vívida de uma pessoa que já não existe? (Poema que integra "Até Nenhum Lugar", de Ademir Assunção)
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