LEITURA - O caos em estado latente
Quem assistiu a ''Sobre Meninos e Lobos'', último filme de Clint Eastwood, deve ter ficado impressionado com a história narrada. Com um roteiro intrincado, mostrava os sinais que a existência pode deixar na pele das pessoas e que, no rebanho de consequências, nem tudo parece ser aquilo que é. Por trás da história estava Dennis Lehane, escritor norte-americano que na última década vem sendo cultuado como um dos grandes autores do gênero policial contemporâneo. ''Sobre Meninos e Lobos'' foi fielmente baseado em seu romance ''Mystic River''.
Nascido em Boston em 1963, Dennis Lehane geralmente utiliza como protagonistas de seus romances dois detetives particulares, Patrick e Angela. A dupla, amigos de infância, trabalha não apenas para desvendar casos para satisfazer clientes, mas para chegar à verdade. E se necessário, fazer justiça.
Suas aventuras podem ser apreciadas em ''Um Drink Antes da Guerra'' (2001) ''Apelo às Trevas'' (2003) e ''Sagrado'', que acaba de ser publicado pela Editora Companhia das Letras. Nesse novo romance, a dupla precisa descobrir dois misteriosos desaparecimentos simultâneo. Primeiro, o da filha de um milionário; segundo, o do detetive contratado para encontrá-la.
Em ''Sagrado'' é marcante estilo de Lehane em utilizar a ironia e o humor na condução narrativa. Outra característica de Lehane está, em várias etapas da história, simular a resolução da investigação. Em determinadas situações, a verdade parece ter sido encontrada e elucidada. Mas, logo em seguida, novos elementos surgem abrindo outras possibilidades de investigação. Dessa maneira, elementos inesperados alteram o caminho percorrido pelos investigadores em várias etapas da narrativa.
Em ''Sagrado'', Patrick e Angela possuem como cliente um homem próximo da morte, vítima de câncer. Detentor de um poder descomunal devido às montanhas de dólares, deseja reaver a filha única desaparecida depois de um abalo emocional pela perda da mãe. O que num primeiro momento parece um simples caos emocional, revela-se um ninho de cobras repleto de frieza.
Inicialmente descobrem que a moça desaparecida foi aliciada por uma igreja que promove uma espécie de lavagem cerebral em seus fiéis para se apropriar de suas contas bancárias. Em seguida percebem que tudo não passa de uma armação para ocultar um intrincada guerra interna de família.
Dennis Lahane cria uma narrativa repleta de surpresas. Acertos e reviravoltas acontecem a cada capítulo. O ponto alto da trama reside na integridade da dupla de investigadores que trabalham acima do jogo moral sem deixar de eleger suas vidas como algo a ser respeitado, algo que beira a categoria do sagrado.
A obra de Dennis Lehane se encaixa perfeitamente à tese do escritor argentino Ricardo Piglia que estabelece uma íntima relação entre o romance policial e a psicanálise. Para Piglia, a figura do detetive surge na literatura para interpretar os acontecimentos a partir de restos de sinais. Uma figura que não pode manter vínculos com nenhuma instituição, nem mesmo a família, e por isso teria condições de julgar a sociedade e seus elementos de maneira independente e livre.
Em ''Sagrado'', os protagonistas, diante do absurdo das relações que estão investigando, chegam à conclusão que devem criar, eles próprios, um território no qual possam viver de modo íntegro e acolhedor. Na verdade, uma tentativa de respirar ar no meio do caos.
Serviço:
- Sagrado, de Dennis Lehane, Editora Companhia das Letras, tradução de Luciano Vieira Machado, 358 páginas, R$ 41,00.





