LEITURA - O caloroso abraço de ninguém
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de dezembro de 2012
Marcos Losnak<BR>Especial para a Folha2 
Prosopagnosia. O nome é tão estranho quanto a rara doença neurológica que a palavra designa. Trata-se de uma desordem de percepção em que o portador não consegue reconhecer rostos. A memória não consegue registrar as faces das pessoas. É como olhar para uma pessoa conhecida sempre como se estivesse vendo-a pela primeira vez.
O protagonista do novo livro do escritor Daniel Galera, "Barba Ensopada de Sangue" é um sujeito assim. Não reconhece rostos. Nem o próprio rosto no espelho. Algo que não o impede de levar uma vida comum. Reconhece as pessoas pelo tipo de cabelo, pelo jeito de falar, pelo modo de olhar e outros detalhes.
Mas essa peculiaridade do personagem é apenas um detalhe na narrativa do escritor. Seu interesse central é outro, parte das correlações do que destino que une e separa filho, pai e avô. A jornada de um tipo de homem regido pela tenacidade. Uma jornada a caminho do isolamento voluntário, do caloroso abraço de ninguém.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "Barba Ensopada de Sangue" narra a história de um jovem professor de educação física que, após a morte do pai, resolve elucidar o desaparecimento do avô paterno que conhece apenas de fotografias.
O desaparecimento é quase uma lenda. O avô teria sido assassinado, de maneira nebulosa, na pequena Garopaba, cidade de pescadores do litoral catarinense convertida em balneário. O corpo nunca foi encontrado e, segundo a lenda, a figura não teria exatamente encaminhado para o céu.
O jovem parte para Garopaba, na companhia da cachorra deixada pelo pai, para dar um tempo na vida e com o objetivo de elucidar a morte do avô. Vale lembrar que sua amada acaba de trocá-lo por seu irmão mais velho. Assim, o que seria uma temporada no fundo do poço se transforma numa odisseia, não de grandes feitos, uma odisseia de banalidades e detalhes do cotidiano. A redenção nasce em meio a essa trivialidade da existência de um homem na multidão. E devidamente marcado pelo destino.
Daniel Galera desenha o enredo pontuado pela pirâmide homem-animal-natureza. A partir dessas três forças, revela a trajetória de um sujeito a caminho da solidão voluntária na criação de um mundo próprio onde tanto o livre-arbítrio quanto o determinismo não são suficientes para dar conta da existência.
Em Garopaba, logo de cara, o jovem percebe que ninguém se dispõe a dar informações sobre seu avô. É como ele não tivesse existido. Como se fosse um fantasma, a cidade apagou deliberadamente da memória seu assassinato. A lenda tornou-se maior do que os fatos. A própria semelhança física entre avô e neto dá origem a novos fantasmas.
O personagem se propõe a desvendar a lenda. E o processo de busca mascara a verdadeira busca, a revelação de si mesmo. O interessante está no fato do autor trabalhar o banal para iluminar a essência dessa busca. E para não fechar a procura com alguma conclusão, converte em uma nova lenda o personagem. A lenda torna-se hereditária. E o próprio prólogo do livro assume a forma do final do romance enquanto hereditariedade.
Autor de outros três romances, Daniel Galera pertence à nova geração de escritores brasileiros. Nascido na cidade de São Paulo em 1979, passou grande parte da vida em Porto Alegre. Em "Barba Ensopada de Sangue", mantém fiel a dicção gaúcha no uso do "tu" em vez de "você" e retoma a intensidade narrativa de seu mais estruturado romance, "Mãos de Cavalo" (Companhia das Letras, 2006). E comete apenas um deslize: o excesso de descrições para retratar um cotidiano trivial.
"Barba Ensopada de Sangue" é uma história que trafega entre o acolhimento e a violência. Desse jogo, homem e natureza correm entre os dois pólos. Mas o animal, na figura de uma cadela, fica de fora, ausente da violência. A testemunha. O silêncio.
Serviço:
"Barba Ensopada de Sangue"
Autor Daniel Galera
Editora Companhia das Letras
Páginas 424
Quanto R$ 39,50
Disponível em e-book
Fragmento:
Dentro dágua não há indícios da ferocidade vislumbrada na superfície. Seu corpo chega desacelerado às pedras lisas e visguentas do fundo e ele se percebe suspenso no murmúrio surdo do mar gelado, sendo embalado de leve pela correnteza. (...) A primeira coisa que faz agora, instintivamente, antes de tentar retornar à superfície, é estudar a força da água até poder dizer com alguma certeza em que direção as ondas estão rebentando. Dá algumas braçadas no sentido inverso da ondulação, sobe, pega ar suficiente e volta para o fundo, procurando se afastar do risco de ser arremessado contra o costão pedregoso.
O fundo é silêncio. A água protetora retarda o tempo.
Mas a superfície é o inferno. Esteiras de espuma surgem de todos os lados cobrindo a sua cabeça e a água salgada desce por sua garganta. Não se vê lua nem estrelas nem nada que possa ajudá-lo a se orientar. Seu corpo é erguido até a crista das ondas e depois sugado de volta para o fundo dos vales e não dá para diferenciar muita coisa além do sobe e desce. O embate ao seu redor envolve forças naturais já conhecidas mas não há arena distinguível. É um pedaço de carne insignificante, à deriva.
(Fragmento de "Barba Ensopada de Sangue", de Daniel Galera)


