Imagine uma crise energética sem precedentes. As reservas de petróleo foram exauridas, os recursos hídricos entraram em colapso. Os cientistas quebram a cabeça pesquisando novas fontes de energia, mas nenhuma solução adequada é encontrada.
Quando o mundo parece perdido, um sujeito aparece com uma ideia salvadora: transformar a raiva humana em fonte de energia. Através de sofisticados receptores, torna-se possível converter a energia da raiva emanada pelas pessoas em energia elétrica.
Grandes corporações começam a instalar painéis receptores de raiva em todos os lugares. E para aumentar a produção de energia, passam a estimular a raiva e o ódio na população. A matemática se apresenta simples, quando mais raiva, mais geração de energia e, consequentemente, multiplicação dos lucros. O mundo torna-se hostil e raivoso, mas a economia cresce, engorda e prospera.
Essa inovadora fonte de energia foi criada pelo escritor russo Sigismund Khzyzanowski (1887 – 1950) no conto "O Carvão Amarelo" que integra a antologia "O Marcador de Página", lançado pela editora 34. O volume traz seis histórias que revelam o realismo fantástico que nunca existiu na literatura russa.
Sigismund Khzyzanowski era um escritor completamente desconhecido até a década de 1980. Praticamente toda sua obra foi publicada postumamente, três décadas após sua morte. Existe um mistério sobre sua existência, já que informações biográficas disponíveis são mínimas e esparsas. Filho de poloneses, foi um homem profundamente discreto que viveu próximo da miséria, a pão e água. Sua obra passou a circular pelo mundo comparada à literatura de Franz Kafka e Jorge Luis Borges.
Em suas histórias, Sigismund Khzyzanowski parte de elementos realistas para criar situações absurdas ou fantásticas. Em "Carvão Amarelo", as corporações privadas e os governos estatais sedentos de energia barata para o crescimento econômico, transformam ódio em um bem de capital. E a população encara a situação de braços abertos porque pode ganhar uns trocados vendendo raiva para ser transformada em energia elétrica.
"Quadraturin" é um dos contos mais emblemáticos que integram "O Marcador de Página". Nele Sigismund Khzyzanowski narra a história de um homem que vive num minúsculo quarto. Um belo dia um sujeito bate em sua porta e oferece uma amostra grátis de um novo e inusitado produto: o ampliador de cômodos.
O produto, chamado Quadraturin, consiste em um líquido que, quando misturado com água e passado nas paredes de um cômodo, provoca o crescimento do espaço. O homem, incrédulo, resolve testar o líquido em seu apertado quarto. O resultado surpreende, mas possui um efeito colateral: o cômodo não para de crescer. A cada dia o quarto fica maior e maior.
Aquilo que seria uma solução torna-se um problema. O sujeito passa a viver num lugar que amplia a cada dia. Seu tormento aumenta quando precisa esconder o tamanho do quarto das autoridades que vigiam o tamanho dos cômodos das casas. Os acontecimentos adquirem proporções absurdas e labirínticas.
As histórias de Sigismund Khzyzanowski podem ser comparadas a algumas narrativas de Kafka e Borges por estarem mais próximas das fábulas do que da ficção. O escritor russo, falecido em 1950, era um verdadeiro caçador de temas. Considerava a fábula "uma velha supersticiosa que teme os maus presságios".

Serviço:
"O Marcador de Página e Outros Contos"
Autor – Sigismund Khzyzanowski
Editora – 34
Tradução – Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
Páginas – 170
Quanto – R$ 45

A vida se reconstituía e se reequipava com rapidez febril. As portas das repartições e das lojas foram adaptadas para captar, nas suas superfícies cobertas por poros invisíveis, a energia dos corpos humanos que se comprimiam à entrada e à saída. As roletas nas entradas dos bulevares, os encostos das poltronas dos teatros, nas mesas e tornos de trabalho absorviam por meio de dispositivos porosos especiais a emulsão biliosa, juntando-a gota a gota em filetes, os filetes, em jorros, e os jorros, em um mar fervilhante e borbulhante de fel. Os tremores de ódio, os espasmos raivosos, os rangidos da ira, ao mergulharem nos fios condutores, se transformavam nos guinchos estridentes das serras elétricas, na vibração dos pistões e no ranger dos dentes das engrenagens. A raiva que era reunida durante o dia no acumulador esperava que, depois de amarelar nos carvões dos lampiões de arco voltaico, a deixassem mugir discretamente na noite raiada de luz. (Fragmento do conto "O Carvão Amarelo" que integra "O Marcador de Página", de Sigismund Khzyzanowski)
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