LEITURA - O caçador de temas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de junho de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Imagine uma crise energética sem precedentes. As reservas de petróleo foram exauridas, os recursos hídricos entraram em colapso. Os cientistas quebram a cabeça pesquisando novas fontes de energia, mas nenhuma solução adequada é encontrada.
Quando o mundo parece perdido, um sujeito aparece com uma ideia salvadora: transformar a raiva humana em fonte de energia. Através de sofisticados receptores, torna-se possível converter a energia da raiva emanada pelas pessoas em energia elétrica.
Grandes corporações começam a instalar painéis receptores de raiva em todos os lugares. E para aumentar a produção de energia, passam a estimular a raiva e o ódio na população. A matemática se apresenta simples, quando mais raiva, mais geração de energia e, consequentemente, multiplicação dos lucros. O mundo torna-se hostil e raivoso, mas a economia cresce, engorda e prospera.
Essa inovadora fonte de energia foi criada pelo escritor russo Sigismund Khzyzanowski (1887 1950) no conto "O Carvão Amarelo" que integra a antologia "O Marcador de Página", lançado pela editora 34. O volume traz seis histórias que revelam o realismo fantástico que nunca existiu na literatura russa.
Sigismund Khzyzanowski era um escritor completamente desconhecido até a década de 1980. Praticamente toda sua obra foi publicada postumamente, três décadas após sua morte. Existe um mistério sobre sua existência, já que informações biográficas disponíveis são mínimas e esparsas. Filho de poloneses, foi um homem profundamente discreto que viveu próximo da miséria, a pão e água. Sua obra passou a circular pelo mundo comparada à literatura de Franz Kafka e Jorge Luis Borges.
Em suas histórias, Sigismund Khzyzanowski parte de elementos realistas para criar situações absurdas ou fantásticas. Em "Carvão Amarelo", as corporações privadas e os governos estatais sedentos de energia barata para o crescimento econômico, transformam ódio em um bem de capital. E a população encara a situação de braços abertos porque pode ganhar uns trocados vendendo raiva para ser transformada em energia elétrica.
"Quadraturin" é um dos contos mais emblemáticos que integram "O Marcador de Página". Nele Sigismund Khzyzanowski narra a história de um homem que vive num minúsculo quarto. Um belo dia um sujeito bate em sua porta e oferece uma amostra grátis de um novo e inusitado produto: o ampliador de cômodos.
O produto, chamado Quadraturin, consiste em um líquido que, quando misturado com água e passado nas paredes de um cômodo, provoca o crescimento do espaço. O homem, incrédulo, resolve testar o líquido em seu apertado quarto. O resultado surpreende, mas possui um efeito colateral: o cômodo não para de crescer. A cada dia o quarto fica maior e maior.
Aquilo que seria uma solução torna-se um problema. O sujeito passa a viver num lugar que amplia a cada dia. Seu tormento aumenta quando precisa esconder o tamanho do quarto das autoridades que vigiam o tamanho dos cômodos das casas. Os acontecimentos adquirem proporções absurdas e labirínticas.
As histórias de Sigismund Khzyzanowski podem ser comparadas a algumas narrativas de Kafka e Borges por estarem mais próximas das fábulas do que da ficção. O escritor russo, falecido em 1950, era um verdadeiro caçador de temas. Considerava a fábula "uma velha supersticiosa que teme os maus presságios".
Serviço:
"O Marcador de Página e Outros Contos"
Autor Sigismund Khzyzanowski
Editora 34
Tradução Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
Páginas 170
Quanto R$ 45


