João Antônio não desconfiava da tragédia. Quando chegou em casa, onde morava com os pais na periferia de São Paulo, teve um choque. A casa não existia mais. Era só carvão e fumaça em 12 de agosto de 1960. Um incêndio, provocado por um ferro de passar roupa, havia destruído tudo. A família não conseguiu salvar nada.
O fato de ter ficado apenas com a roupa do corpo não preocupou João Antônio. O que deixou-o desesperado foi saber que os manuscritos de seu primeiro livro ''Malagueta, Perus e Bacanaço'' havia sido consumido pelo fogo. Representava o trabalho realizado ao longo de seis anos, onde colocava em prática o que passou a ser chamado de ''regionalismo urbano''.
Desolado, João Antônio (1937 1996) vagou por um bom período sem residência fixa. Dormindo um dia num sofá, outro dia em outro. Para seu alívio, conseguiu recuperar parte do livro. Cópias de alguns contos estavam nas mãos de amigos e outros textos haviam sido publicados em jornais e revistas.
O texto que o escritor paulista não conseguiu recuperar foi justamente ''Malagueta, Perus e Bacanaço'', que daria título ao livro. Ele considerava o principal conto por ele escrito. Ao apresentar a história de três malandros que vagam pela noite paulistana procurando descolar algum dinheiro em partidas de sinuca, fazia da narrativa uma tempestade da linguagem. Trabalhando com um ®MDBO¯®MDNM¯texto pautado pela oralidade e gírias, levava para as letras a atmosfera e a linguagem de personagens urbanos exilados da literatura.
João Antônio elegeu como necessidade vital reescrever ''Malagueta, Perus e Bacanaço''. Depois de dois anos do incêndio, conseguiu reconstruir o livro que seria publicado em 1963. Agraciado com quatro prêmios literários, o volume marcaria estréia de um autor que, ao longo dos anos, seria considerado um dos grandes contistas da história da literatura brasileira.
Fora de catálogo e longe das livrarias há duas décadas, ''Malagueta, Perus e Bacanaço'' acaba de ser reeditado pela Editora Cosac Naify. A obra deixa algo bem claro: a literatura de João Antônio estava completamente formada já em seu primeiro livro. Os contos trazem a força narrativa, o apuro de linguagem, o retrato da vida proletária, o submundo urbano noturno, a recriação da dicção de rua e a dramaticidade de uma existência carente de perspectivas.
A literatura do escritor, desde seus primeiros contos, está totalmente pautada por personagens exclusivamente masculinos. Malandros de rua, aspirante a boxeadores, jogadores de sinuca, operários em geral, torcedores de futebol, bêbados de balcão, gigolôs, soldados do tiro de guerra e muito mais. Figuras femininas aparecem em suas histórias sempre de maneira secundária. Como se as mulheres entrassem no universo masculino apenas como coadjuvantes de um universo duro, ríspido e particular.
''Malagueta, Perus e Bacanaço'' é formado por três blocos de contos. O primeiro apresenta sujeitos que deixam a dedicação do esporte de lado para se ocupar do improvável. Há o relato de um jogador de futebol que deixa a bola de ®MDBO¯®MDNM¯lado para chutar tampinhas de garrafa na rua. Há o relato de um lutador de judô que perde e troca a paixão do tatame pelo adultério da mulher do melhor amigo. No segundo bloco, João Antônio revela histórias de quartel, com jovens atormentados pelo autoritarismo do serviço militar obrigatório.
No terceiro, entra no universo dos jogadores de sinuca, um tema recorrente na literatura de João Antônio. No conto ''Meninão do Caixote'', por exemplo, narra a história de um garoto que, longe dos olhos da mãe, torna-se um imbatível jogador de bilhar. Fazendo uso de um caixote de leite condensado para alcançar a mesa, joga com apostadores adultos que visam lucro enquanto ele pensa em fugir de sua realidade.
Nos últimos anos, a Cosac Naify vem reeditando as principais obras de João Antônio como ''Abraçado ao Meu Rancor'', ''Ô Copacabana!'', ''Leão-de-Chácara'' e ''Dedo-Duro''. Para 2005 promete lançar dois livros inéditos: a novela ''Comprados e Vendidos'' e um volume de contos garimpados do acervo do escritor sob a tutela da Universidade Estadual de São Paulo campus de Assis.

Serviço:
- ''Malagueta, Perus e Bacanaço'', de João Antônio, Editora Cosac Naify, apresentação de Antonio Candido, encarte com texto de Rodrigo Lacerda e João Antônio, 250 páginas, R$ 29,90.

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