LEITURA - O beijo do inimigo
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de maio de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Nos romances policiais, o personagem principal normalmente é um investigador procurando desvendar um crime, encontrar o assassino. Na maioria das vezes, a história é narrada a partir do ponto de vista desse detetive. O criminoso é desconhecido e a trama uma espécie de quebra-cabeça montado peça por peça.
No romance ''O Assassino em Mim'', o escritor norte-americano Jim Thompson (1906 - 1977) inverte essa lógica. O personagem principal é o assassino e a história é narrada a partir de seu ponto de vista. E mais: ele é um policial, teoricamente a pessoa indicada para deter o criminoso. No caso, ele próprio.
No livro, lançado pela Editora Planeta, Jim Tompson narra a história de Lou Ford, xerife de uma pequena cidade do interior do Texas. É o policial mais admirado pela população do lugar. Sem utilizar nenhuma arma, resolve todas as ocorrências de maneira pacífica, utilizando apenas uma boa conversa.
O problema é que Lou carrega dentro de si algo que ele chama de ''mal-estar'', uma espécie de serpente adormecida em sua mente. Venenosa e violenta, ela precisa permanecer hibernada para não fazer estragos. A primeira vez que o ''mal'' se manifestou, Lou ainda era um garoto, mas a menina que estava ao seu lado ficou estraçalhada. A culpa foi assumida pelo irmão mais velho e Lou saiu ileso.
Muito tempo depois, a serpente desperta novamente. Tudo tem início quando Lou precisa expulsar do lugar uma garota de programa que acaba de se instalar na cidade. Tenta, mas não consegue. Em seus braços, abre as comportas do ''mal-estar'' que ganha maiores proporções. Vingar a morte do irmão, um assassinato disfarçado de ''acidente de trabalho'', também escorre pelas comportas.
Como todo psicopata, Lou é um sujeito inteligente. Calcula friamente suas ações e deixa raras pistas. Sua violência contra mulheres possui elementos claramente psicanalíticos. Além disso, possui como grande álibi o fato de o policial mais amado, gente boa e pacífico da cidade. Está acima de qualquer suspeita.
Como todo psicopata, Lou deixa minúsculas pistas para ser condenado. Essas minúsculas pistas podem ser interpretadas como uma solicitação de ser preso. Um pedido para que alguém o impeça de continuar matando pessoas. Um limite para uma força violenta que ele não consegue controlar.
Um elemento interessante utilizado por Jim Thompson em ''O Assassino em Mim'' está presente no fato da figura do ''investigador'' aparecer diluída. Praticamente tal personagem não existe na narrativa. Seu papel surge espalhado em vários personagens secundários. Até mesmo o único homem que mantém o foco das investigações na direção correta, não tem visibilidade no decorrer da história.
''O Assassino em Mim'' foi escrito no final da década de 40, época da ascensão do gênero ''noir'' na literatura norte-americana. Autor de dezenas de livros, Jim Thompson ficou mais conhecido como criador de roteiros para vários diretores de cinema, entre eles Stanley Kubrick.
Com uma linguagem simples e direta, o romance é o testemunho de assassino pacífico e violento ao mesmo tempo. Uma espécie de ''médico e monstro''. Deixa evidente que, na escuridão da mente, o homem é seu próprio inimigo.
Serviço:
- O Assassino em Mim, de Jim Thompson. Editora Planeta, tradução de Luana Freitas, 240 páginas, R$ 39,90.


