LEITURA - O avesso do feio
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de janeiro de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Tudo indica que a noção de complexidade é uma característica do mundo contemporâneo. Uma noção que fica mais evidente quando se focalizam as mudanças ocorridas nas relações humanas e sociais das últimas décadas. A escritora inglesa Zadie Smith centrou o foco de sua literatura nessa complexidade das relações, fez de suas histórias lúcidos retratos dos tempos imediatos de hoje.
Seu novo romance ''Sobre a Beleza'', Zadie Smith narra o embate entre dois professores universitários que vivem acirradas batalhas intelectuais. Howard é um liberal, defensor de ações afirmativas em prol das minorias. Monty é um conservador, defensor de valores mais tradicionais. Howard é um homem inglês casado com uma mulher afro-americana. Monty é um homem negro do Caribe casado com uma mulher inglesa.
Como em seus dois romances anteriores, ''Dentes Brancos'' e ''O Caçador de Autógrafos'', em ''Sobre a Beleza'' Zadie Smith coloca em evidência as interações entre pessoas de raças, nacionalidades e etnias distintas numa espécie de ''Torre de Babel'' urbana cosmopolita. As complexidades das relações multirraciais são estendidas para as relações humanas.
Ambos professores são teóricos da arte. Zadie utiliza esse componente para estabelecer conexões entre a idéia do belo na arte e a idéia de beleza na vida e nas relações afetivas. Os dois acadêmicos dominam com propriedade intelectual todo o discurso da expressão estética, mas são simbolicamente dominados por aquilo que diz respeito à expressão humana. Numa espécie de jogo, a maturidade intelectual assume a imagem de algo inversamente proporcional à maturidade emocional.
O embate pega fogo quando um dos filhos de Howard se apaixona por uma das filhas de Monty. Os dois adolescentes erguem um celeuma entre as duas famílias. Para piorar as coisas, Howard e Monty passam a dar aulas na mesma universidade, no mesmo departamento. E para piorar ainda mais, suas respectivas esposas tornam-se amigas. E para colocar lenha na fogueira, ambos são apanhados traindo suas esposas com professoras e alunas.
Há uma boa dose de ironia no relato de ''Sobre a Beleza'', lançado pela editora Companhia das Letras. A condução narrativa utilizada por Zadie deixa no leitor a impressão de realidade, não de ficção. O cotidiano familiar das personagens é retratado em detalhes. Fatos cotidianos aparentemente desnecessários são tratados com a mesma atenção que os episódios determinantes da história.
A ironia está expressa em vários pontos, como nas brigas entre professores universitários e as relações de poder no interior dos departamentos das instituições. Qualquer pessoa que tenha passado, seja pelos bancos ou corredores de uma universidade, sabe que atrás de uma aparente discussão intelectual existe na realidade um bate boca de poder próximo da baixaria.
Outro ponto irônico está na tentativa de uma das filhas de Howard inserir no interior da universidade um ''rapper'' das ruas da cidade. Em pouco tempo os ideais de inclusão vão por água abaixo quando a garota descobre que o rapaz está dormindo com outra menina.
Zadie Smith parece dizer que todo ideal do politicamente correto, do processo de tolerância social, dos mecanismos dos direitos humanos, simplesmente parte para o espaço quando a paixão, o desejo sexual e busca do poder entram na jogada. A ilusão, ou a auto-ilusão, assume a forma de um fantasma capaz de virar a mesa quando menos se espera.
A complexidade das relações sociais e raciais poderia ser encarada como algo relativamente simples se comparado à complexidade dos sentimentos humanos. Nesse contexto, a família pode se transformar numa bomba-relógio, sem data prevista para a explosão. ''Sobre a Beleza'' é uma história sobre rupturas de laços familiares. Mais do que isso, sobre as transformações desses laços de acordo com a personalidade de cada elemento que a integra.
Fragmento de ''Sobre a Beleza'', de Zadie Smith
Kiki não havia tirado o rosto da almofada e falou nela. ''Não sei mais se você é a pessoa para mim.''
''Não estou ouvindo - o quê?''
Kiki levantou a cabeça. ''Howard, eu amo você. Mas simplesmente não estou interessada em acompanhar sua segunda adolescência. Tive a minha adolescência. Não posso enfrentar a sua de novo.''
''Mas...''
''Não menstruo há três meses - você sequer sabia disso? Fico louca e emotiva o tempo todo. Meu corpo está dizendo que o espetáculo acabou. Isso é real. E não vou ficar nem um pouco mais magra nem jovem, minha bunda vai chegar ao chão, se é que já não chegou - e quero ficar com alguém que ainda consiga me ver aqui dentro. Eu ainda estou aqui dentro. E não quero que me rebaixem ou me depreciem por estar mudando... prefiro ficar sozinha. Não quero alguém que sinta desprezo por quem me tornei. Vi você se tornar também. E sinto que fiz o melhor que pude para honrar o passado, o que você era e o que você é agora - mas você quer mais do que isso, quer algo novo. Não posso ser nova.''
Howard, já chorando também, levantou-se de onde estava e sentou-se atrás da esposa. Envolvei sua sólida nudez com os braços. Num sussurro, começou a implorar a concessão que as pessoas sempre imploram: um pouco mais de tempo.
SERVIÇO:
- ''Sobre a Beleza'' de Zadie Smith, Editora Companhia das Letras, tradução de Daniel Galera, 448 páginas, R$ 48,00.


