LEITURA - O ativista das letras
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Marcos Losnak <br> <br> Especial para a Folha2 
No último dia 15 de maio, aos 83 anos de idade, faleceu o escritor mexicano Carlos Fuentes. Faleceu pouco depois de concluir seu novo romance, ''Frederico na Varanda'', em que trava uma longa e ficcional conversa com o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 - 1900) numa madrugada insone.
Faleceu pouco depois de ser apontado pela ONU como uma das personalidades do mundo capaz de ajudar, como interlocutor, a restabelecer o diálogo entre as civilizações com o objetivo de evitar conflitos entre povos e comunidades.
Ao lado de Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes era um dos últimos escritores vivos que fizeram parte do chamado ''boom latinoamericano'' - fenômeno que fez com que a literatura produzida na América Latina ficasse conhecida em todo o mundo.
Considerado um dos grandes narradores modernos da literatura mexicana e eterno candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, defendia que a história do México era simultânea, tudo acontecia no presente. O passado e o futuro se encontravam no presente, tudo ao mesmo tempo.
Embora se considerasse mexicano, Carlos Fuentes nasceu no Panamá em 11 de novembro de 1928. Filho de diplomatas, cresceu em sucessivas cidades dos mais variados países. Quito, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Washington, Montevidéu e Santiago. Na juventude, fixou residência na Cidade do México, onde se tornou um apaixonado pela história do país. Com 30 anos de idade entrou para a carreira diplomática trabalhando em vários países da Europa ao longo das décadas.
Ao lado de sua atividade literária, sempre atuou como ativista nas mais variadas causas. Políticas e sociais. Nos últimos anos integrava o grupo de ex-presidentes latinoamericanos (entre eles, Fernando Henrique Cardoso), que busca a solução dos problemas causados pelas drogas. O primeiro passo defendido pelo grupo seria legalização da maconha. O tema merecia uma atenção especial de Carlos Fuentes após 2005, ano em que perdeu sua filha Natacha de 29 anos, dependente de drogas. Natasha foi assassinada quando tentava comprar droga num violento bairro da Cidade do México, conhecido por seus pontos de tráfico.
Entre os 45 livros escritos por Fuentes, entre romances e ensaios, 21 deles foram publicados no Brasil: ''Gringo Velho'', ''Eu e os Outros'', ''Cristóvão Nonato'', ''A Morte de Artemio Cruz'', ''A Laranjeira'', ''A Campanha'', ''Diana'', ''A Fronteira de Cristal'', ''O Espelho Enterrado'', ''Os Anos com Laura Diaz'', ''Instinto de Inez'', ''Contra Bush'', ''A Cadeira da Águia'', ''Este é meu Credo'', ''Geografia do Romance'', ''Inquieta Companhia'', ''Em 68: Paris, Praga e México'', ''A Vontade e a Fortuna'', ''Todas as Famílias Felizes'', ''Adão do Éden'', todos publicados pela editora Rocco. E ''Aura'', publicado pela editora L&PM.
O último romance escritor pelo autor, ''Frederico na Varanda'', será lançado pela editora Rocco no final do ano. A mesma editora coloca em outubro nas livrarias seu volume de ensaios mais representativo, ''O Grande Romance Latinoamericano''. A obra traz uma leitura da história da literatura do continente mostrando como e por que o grande ''boom latinoamericano'' foi possível. O próprio Fuentes contextualiza sua leitura com as seguintes palavras: ''Nós, da América Latina, começamos a escrever a partir de um evento extraordinário, que foi a descoberta da outra metade do mundo, que não se sabia que existia. E a obrigação dos primeiros cronistas das Índias, começando por Cristóvão Colombo, era contar maravilhas para o público europeu. Aqui há sereias. Aqui há baleias de duas cabeças. Isso era fantástico! O realismo mágico que se atribui a Alejo Carpentier e García Márquez foi inventado pelos cronistas das Índias. Maravilharam o público europeu que esperava que o continente americano fosse um continente de maravilhas''.
Na visão de Fuentes, a história latinoamericana começa com um realismo mágico e, em seguida, com uma grande crônica épica: ''Uma épica desiludida, que é a conquista do México por Bernal Díaz del Castillo. Bernal chega, vê o mundo azteca, o mundo de uma grande cultura, uma grande cidade, a segunda cidade do mundo nesse momento, a do México, e tem que destruir o que admira. Isso cria um grande conflito no ânimo dos conquistadores e de seus descendentes''.
Em sua conclusão, a literatura do continente possui ainda muita coisa a dizer: ''No século 19, salvo Machado de Assis, ninguém disse o que tinha que dizer. O trabalho era copiar o naturalismo e o realismo europeus. Só no século 20, com Alejo Carpentier, Jorge Luis Borges, Lezama Lima, Juan Rulfo, se está contando a nossa realidade. E essa foi a herança que tivemos nós do 'boom latinoamericano': dizer o que não havia sido dito, contar a história não dita. E os novos romancistas não têm por que repeti-la, estão contando o que acontece hoje, isso me parece muito importante''.


