É instigante para o leitor ver o aprimoramento narrativo de determinado escritor. Ter a experiência do processo de evolução da escrita ao longo de seus livros. Em seu último romance, "O Caminho de Ida" que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras, o escritor argentino Ricardo Piglia presenteia o leitor nesse sentido.
A literatura de Piglia sempre investiu na junção de dois gêneros literários, o romance e o ensaio. Vários de seus romances enveredam pela vertente que passou a ser chamada de romance-ensaio. Em "Caminho de Ida", o escritor une os dois gêneros sem deixar arestas, as distinções são apagadas para formar um corpo único, orgânico em sua fluidez narrativa. Além disso, incorpora as teorias do gênero policial, elemento recorrente em sua obra.
"Caminho de Ida" narra a história de Emilo Renzi (personagem presente em outros romances de Piglia) em sua estadia nos Estados Unidos, na década de 1990, como professor de literatura numa renomada universidade. Como argentino, Renzi vive a experiência de estrangeiro e faz uso dessa condição, como alguém de fora, para ler a cultura norte-americana e suas contradições.
Na universidade, Renzi se apaixona por Ida, uma brilhante professora, mulher forte, independente e cheia de segredos. A relação amorosa dos dois é interrompida drasticamente com a morte de Ida num nebuloso acidente de carro. Um detalhe liga o acidente a uma série de atentados terroristas a bomba que assola o país onde as vítimas são todos cientistas e professores universitários.
Abalado com a perda, Renzi resolve investigar a morte da amada e descobre que os atentados estão sendo praticados por um sujeito solitário que consegue enganar toda a polícia americana ao longo de anos. Trata-se de um genial matemático chamado Thomas Munk que abandona uma respeitada e promissora carreira acadêmica para viver isolado no meio do mato apenas pela autossubsistência.
Para Munk, a vida contemporânea está fadada ao fracasso e ao colapso. A opção seria voltar às raízes e viver de maneira simples, sem o desenfreado acumulo tecnológico capitalista, sem o excesso de complexidade das relações econômicas e políticas. Quando finalmente é preso e condenado à pena de morte, suas ideias (publicadas na forma de um manifesto intitulado "Manifesto Sobre o Capitalismo Tecnológico") ganham milhares de seguidores.
A figura ficcional de Munk é claramente inspirada na figura real de Unabomber, um acadêmico que atormentou os Estados Unidos na década de 1990 com uma série de atentados a bomba que a polícia levou anos para elucidar. A justificativa dos atentados era embasada em ideias ordenadas a partir do argumento de que a violência era a única forma eficiente de ser ouvido.
A partir de uma perda amorosa e uma investigação policial, Ricardo Piglia desenha um painel da sociedade norte-americana através do olhar de alguém de fora. Um olhar capaz de enxergar coisas que os nativos não conseguem ver. Um olhar capaz de perceber que o país é capaz de produzir venenos e antídotos para os próprios venenos. E que, nesse processo de criar veneno e criar antídoto e depois novamente veneno e novamente antídoto, a razão perde a lucidez.
Piglia realiza todas essas associações e conexões através da literatura. Autores e obras da literatura universal estão presentes em cada interpretação dos fatos, dos acontecimentos e da realidade. A ficção, bem como a própria literatura, assume a forma da melhor ferramenta para auxiliar a leitura do mundo e as sociedades contemporâneas.
Um dos argumentos desenvolvido por Ricardo Piglia em "O Caminho de Ida", por exemplo, está na mudança da antiga lógica de que os pensamentos interferem e mudam a forma de vida. O novo raciocínio é de que são as formas de vida que interferem e mudam os pensamentos.

SERVIÇO
"O Caminho de Ida"
Autor – Ricardo Piglia
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Sérgio Molina
Páginas – 248
Quanto – R$ 39,50 e R$ 27,50 (e-book)

FragmentoO fato de ele negar a proteção por insanidade era considerado pelos advogados uma prova de demência. Só os loucos argumentam que não estão loucos, porque ninguém em sã consciência insistiria estar no seu juízo perfeito. Para Munk, ao contrário, a discussão sobre a loucura não poderia ser uma condição do processo, e sim o seu resultado. ("Define-se como essência o que deveria ser o objeto de análise", dissera.) Portanto, pedia que seus escritos e seus atos fossem o centro do debate jurídico, e não sua pessoa. Porque ninguém é somente um assassino ou um louco, e sim muitas coisas mais, simultâneas e sucessivas, mas um ato sim pode ser definido por seu caráter próprio, por seus objetivos e consequências. O Estado queria declará-lo demente para que seus argumentos políticos fossem desprezados como delírio, disse. Seus argumentos e suas razões não eram considerados, o que era clássico nos Estados Unidos, onde as razões políticas radicais eram vistas como desvio de personalidade. (Fragmento de "O Caminho de Ida" de Ricardo Piglia)
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