LEITURA - O amor no precipício
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de fevereiro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Ninguém deveria escrever um romance antes de completar 40 anos de idade. Essa era a tese defendida pelo escritor francês Stendhal (1783 - 1842). Para ele, era necessário viver uma série de experiências, passar por diferentes formas de encará-las para tecer um romance a chamada maturidade.
Stendhal (cujo verdadeiro nome era Henri Beyle) levou essa tese ao pé da letra. Publicou seu primeiro romance, ''Armance'' com 43 anos de idade, em 1827. Depois vieram ''O Vermelho e o Negro'' (1830) e ''A Cartuxa de Parma'' (1939) que o consagraram como um dos grandes nomes da literatura francesa e influenciaram várias gerações de escritores.
Stendhal volta às livrarias brasileiras com dois lançamentos. ''O Vermelho e o Negro'', um dos clássicos da literatura francesa e sua obra mais cultuada, acaba de receber um nova edição e tradução, lançada pela Cosac & Naify. E ''Armance'', ganha sua primeira edição brasileira da Editora Estação Liberdade.
''Armance'' apresenta a história de um amor impossível, tema que acompanhou toda produção literária de Stendhal. Narra a trajetória de Octave, um jovem em sua descoberta do amor no seio da aristocracia parisiense. De forte caráter moral, contrapõe seus sentimentos amorosos diante de sua bela prima, Armance, e a hipocrisia de uma classe social que se estrutura a partir da riqueza.
Na época em foi originalmente publicado, ''Armance'' continha uma boa dose de ousadia. Isso porque o herói do romance, Octave, vive um conflito velado entre o amor sentimental e o amor carnal. Sofrendo de ''babilanismo'' (designação de impotência sexual), é impelido a dar ênfase ao ''amor romântico'' deslocando o drama para outras áreas coletivas e sociais, não íntimas e particulares.
Em ''O Vermelho e o Negro'', Stendhal retoma o drama do amor impossível, mas não faz dele o conteúdo determinante. Conta a história do jovem Julien, filho de um operário que através dos estudos procura fugir do destino provinciano no interior da França. Como aspirante a seminarista, consegue respeito e, com astúcia, galgar ascensão social e monetária. Dotado de inteligência e de um caráter moral e ético inabalável, vive em conflito permanente entre o desejo de atingir respeito social e fazer parte de uma sociedade hipócrita pautada pelo poder.
Em seu primeiro emprego como professor, apaixona-se pela mulher de seu protetor. Vivendo uma paixão clandestina, impelido à ousadia. E graças a ela chega às graças dos nobres, apaixonando-se, dessa vez, pela filha de um aristocrata. Assim, vive em permanente conflito, entre seu caráter moral e as forças do amor.
Julien, o herói de ''O Vermelho e o Negro'', acima das questões amorosas, vive a tragédia de um homem pautado por princípios corretos sumariamente eliminado da estrutura social por não se adequar as modos dissimulados de corrupção. Na narrativa há toda uma implicação ideológica relativa a transformações da França após a queda do império de Napoleão, totalmente vinculada à época em que o romance foi escrito. Mas, numa leitura atual, elementos como esses perdem peso.
Nas obras de Stendhal, o amor se apresenta como a argamassa que une as pedras da grande muralha social. Uma argamassa que se recusa a fazer parte de uma muralha na qual coloca fé. Por não oferecer a liberdade de felicidade, a muralha torna-se um inimigo peçonhento. Reforça a idéia de que a paixão é a maior das forças revolucionárias, mesmo que permaneçam desprezadas pelo universo social, mesmo que levem à morte como o vento leva a chuva.
Serviço:
- ''O Vermelho e o Negro'' de Stendhal, Cosac & Naify Edições, tradução de Raquel Prado, prefácio de Tarsila do Amaral, posfácio de Heinrich Mann, 576 páginas, capa dura, R$ 49,00.
- ''Armada - ou Algumas Cenas de um Salão Parisiense em 1827'' de Stendhal, Editora Estação Liberdade, tradução e prefácio de Leila de Aguiar Costa, 288 páginas, R$ 28,00.


