O amor é um vício. Depois que uma pessoa prova duas ou três doses, tem início uma longa dependência. Um vício que pode ser encarado como um refrescante existencial e, ao mesmo tempo, uma chaga dolorosa. A tendência indica que todo humano, uma hora ou outra, experimenta esse vício e realiza sua escolha: entregar-se ou abster-se.
Outra possibilidade deve ser levada em conta. E quando uma pessoa se recusa a experimentar a primeira dose? Ela seria capaz de eliminar a possibilidade de experimentar o vício do amor? Ou estaria ela fadada a nunca livrar-se do fantasma da possibilidade amorosa?
São questões que instauram respostas dúbias e contraditórias. Questões que o escritor e dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906 - 1989) cercou sem a preocupação de elucidá-las em ''Primeiro Amor'', novela publicada pela Cosac & Naify Edições. Numa bela e conceitual edição, o livro resgata uma obra do autor fora de catálogo desde 1987, quando foi publicada pela Editora Nova Fronteira.
Escrita em 1945, Beckett nunca deu muita atenção a ''Primeiro Amor''. Quando dizia algo sobre a obra, apenas afirmava que foi sua primeira tentativa de escrever um texto em língua estrangeira. Sua intenção era abandonar a língua nativa, o inglês, para adotar o francês na tentativa de causar um maior estranhamento narrativo.
''Primeiro Amor'' é narrado por um personagem sem nome e sem destino. Levando uma existência pautada pelo vazio (ou pela tentativa de instaurar o vazio em si mesmo e à sua volta), oferece uma visão de mundo seca e desprovida de esperanças. Após a morte do pai, é impelido a deixar a casa onde mora, passando os dias sentados num banco de praça.
Nessa praça, recebe a visita regular de uma mulher desconhecida, com quem troca poucas palavras. O incômodo de ter alguém próximo é lentamente substituído por alguma coisa que o narrador desconhece: o amor. Quando admite o contato com esse sentimento, encara-o como uma prisão na qual se recusa a confinar.
Adepto da solidão absoluta, o narrador é seduzido pela mulher e levado a viver com ela numa pequena casa. O contato físico entre ambos é restrito, assinalando a construção de uma relação subjetiva onde o vazio existencial e plenitude dos sentimentos são colocados em crise. E quem ganha maior peso, é justamente o vazio em busca de preenchimento.
''Primeiro Amor'' estabelece a vida e a morte como um único elemento, separado apenas pela postura da lucidez. Um tema que remete aos principais romances de Beckett ''Malone Morre'' (Editora Brasiliense, 1986), ''Molloy'' (Editora Nova Fronteira, 1987) e ''O Inominável'' (Editora Nova Fronteira, 1989). Abordagens onde a situação regular da vida é colocada de ponta-cabeça. O peso de todos os valores são colocados em pé de igualdade e, assim, nenhuma resposta pode ser verdadeira.
Em ''Primeiro Amor'' Samuel Beckett rompe completamente com os padrões de tratamento de amor ''água-com-açúcar'' na literatura da primeira metade do século 20. Desenha o amor como sepultura que o homem contemporâneo, após erguer a lápide, procura restaurar com sede e desespero. Instaura uma nova abordagem, desencantada e expansiva, onde a própria recusa do amor é uma forma de aceitar o poder de sua existência. O próprio ato de matar o sentido amoroso converte-se numa tentativa de afirmá-lo.
A grande experiência da leitura de ''Primeiro Amor'' é instaurar a dúvida. O maior dos vícios estaria no amor ou no desamor? A possível resposta estaria na linguagem de Beckett: não há resposta.


Serviço:
- Primeiro Amor, de Samuel Beckett, Cosac & Naify Edições, tradução e ilustrações de Célia Euvaldo, 42 páginas, R$ 22,00.

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