Velhice e morte não fazem parte dos brinquedos da juventude. Estes dois elementos estão reservados àqueles que completam décadas e mais décadas de idade. Aqueles que olham para o futuro e enxergam apenas poucos metros adiante. E conseguem sentir gratidão.
Esse foi o sentimento que o neurologista e escritor inglês Oliver Sacks teve ao completar oitenta anos de idade. Um sentimento que se acentuou ainda mais após ser diagnosticado com câncer metastático no fígado sem probabilidade de cura.
No período de dois anos, entre o diagnóstico e sua morte ocorrida em 30 de agosto de 2015, Oliver Sacks escreveu quatro breves ensaios sobre a velhice e a morte. Os textos acabam de ser publicados em "Gratidão", livro póstumo lançado pela editora Companhia das Letras.
"Gratidão" é um livro pequeno com textos breves, mas o teor de sinceridade de suas palavras é enorme. A capacidade de Oliver Sacks olhar para a velhice e para a morte com a cabeça erguida e sentir gratidão perante a vida que se finda, é comovente. E faz questão de não apelar por instâncias superiores: "Quanto a mim, não creio em (nem desejo) uma existência após a morte, exceto na memória dos amigos e na esperança de que alguns dos meus livros ainda possam ‘falar’ às pessoas depois que eu morrer."
No primeiro texto do livro, "Mercúrio", Sacks escreve sobre a sensação de completar oitenta anos de idade: "Aos oitenta paira o espectro da demência ou derrame. Um terço dos meus contemporâneos está morto, e vários outros, com graves problemas mentais e físicos, vivem presos numa existência trágica e mínima. Aos oitenta as marcas da decadência são demasiado visíveis. Nossas reações são um tanto mais lentas, os nomes nos fogem mais amiúde, e cumpre administrar melhor as energias, mas ainda assim é possível nos sentirmos muitas vezes cheios de vigor e nem um pouco ‘velhos’. Quem sabe, com sorte, eu consiga seguir, mais ou menos intacto, por alguns anos e me seja concedida a liberdade para continuar a amar e trabalhar, as duas coisas mais importantes na vida, como garantiu Freud."
Nos outros três textos que completam "Gratidão", Sacks já está consciente de seu diagnóstico e troca o tema velhice pelo fim que se aproxima. O acerto de contas com o passado não se torna tão necessário, a urgência está em acertar as contas com o presente. E nesse processo a humildade torna-se uma ferramenta mais do que necessária.
No texto "Shabat", Sacks menciona um assunto revelado somente após ele ter completado oitenta anos: sua homossexualidade. Ele somente assumiu tal fato publicamente em sua autobiografia publicada em 2014 nos Estados Unidos e lançada no Brasil pela editora Companhia das Letras em 2015 com o título "Sempre em Movimento".
Na juventude Sacks teria tentado contar aos pais, judeus ortodoxos, sua predileção por garotos. O resultado teria sido sua mãe chorando, berrando pela casa que ele era uma "abominação", que desejava que ele "nunca tivesse nascido". Sacks levou tempo para perceber que sua mãe se referia, com "abominação", ao versículo bíblico do livro "Levítico". Mas o trauma foi tamanho que ele permaneceu por quase três décadas solitário, sem estabelecer nenhuma relação amorosa ou sexual.
Oliver Sacks nasceu em Londres, em 1933. Após concluir o a faculdade de medicina na Inglaterra, mudou-se para os Estados Unidos, onde se tornou um dos mais populares neurologistas da segunda metade do século 20. Passou a ser conhecido com a publicação de "Tempo de Despertar" (1973), onde narrava suas experiências com pacientes catatônicos. O livro foi transformado em filme por Penny Marshall em 1990, com Robert De Niro e Robin Williams nos papéis principais.
É autor de obras que se tornaram referência na comunhão entre ciência e literatura. Entre elas destacam-se "Vendo Vozes", "O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu", "Enxaqueca", "Um Antropólogo em Marte", "A Mente Assombrada", "Alucinações Musicais", "A Ilha dos Daltônicos" e "O Olhar da Mente". Sua arte consiste em narrar casos clínicos pouco comuns utilizando as ferramentas da literatura. Oliver Sacks é um exímio narrador de histórias de casos clínicos não totalmente decodificados pela ciência. Em sua capacidade de ver o ser humano sob cada estudo científico reside sua grande obra.

Serviço:
"Gratidão"
Autor – Oliver Sacks
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Laura Teixeira Motta
Páginas – 64 (capa dura)
Quanto – R$ 29,90

Meu pai, que viveu até os 97 anos, costumava dizer que seus oitenta anos tinham sido uma das décadas mais agradáveis de sua vida. Ele sentiu, como começo a sentir, não um encolhimento, e sim uma expansão da vida mental e da perspectiva. Nessa altura já tivemos uma longa experiência de vida, não só da nossa, mas também da de outros. Já vimos triunfos e tragédias, altos e baixos, revoluções e guerras, grandes realizações e profundas ambiguidades também. Já assistimos notáveis teorias ascenderem e acabarem derrubadas por fatos teimosos. Somos mais conscientes da transitoriedade e, talvez, da beleza. Aos oitenta podemos relembrar um vasto panorama e ter um senso claro de história vivida impossível aos mais novos. Posso imaginar, sentir nos ossos, o que é um século, coisa que não podia fazer aos quarenta. Não penso na velhice como uma fase cada vez mais penosa que é preciso suportar e levar o melhor possível, mas como um período de liberdade e tempo descomprometido, sem as infundadas urgências de outrora, livre para explorar o que eu quiser e para amarrar os pensamentos e sentimentos de toda uma vida. (...) Nesses últimos anos tenho sido capaz de ver minha vida como que de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem, e com uma noção crescente da conexão entre todas as suas partes. Isso não quer dizer que não quero mais nada com a vida. Muito pelo contrário, sinto-me intensamente vivo, e desejo e espero, no tempo que ainda me resta, aprofundas minhas amizades, dizer adeus àqueles a quem amo, escrever mais, viajar, se tiver força, atingir novos patamares de compreensão e descortino. Será preciso audácia, clareza e franqueza; tentar pôr em ordem as minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para alguma diversão (e até um pouco de bobagem). Sinto uma repentina clareza de enfoque e de perspectiva. Não há tempo para o que não é essencial. Devo me concentrar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não assistirei mais o noticiário toda noite. Não vou mais prestar atenção em política ou em discussões sobre o aquecimento global. Não é indiferença, é distanciamento. Ainda me sensibilizo muito com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com as desigualdades crescentes, mas eles não são mais da minha conta; pertencem ao futuro. Exulto quando conheço jovens talentosos. Sinto que o futuro está em boas mãos. (Fragmento de "Gratidão", de Oliver Sacks)
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