LEITURA - O acalento do vazio
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de outubro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O Prêmio Nobel de Literatura de 2003, concedido dias atrás ao escritor sul-africano John Maxwell Coetzee, não causou nenhum surpresa nos corredores das letras. Isso porque, além de já ter seu nome indicados em outros anos, Coetzee é um autor conhecido e admirado por seus romance bem articulados e repletos de elementos que exploram a vida contemporânea em suas dores mais dissimiladas.
J. M. Coetzee não é nenhum estranho dos leitores brasileiros, já que oito de seus romances foram publicados no país na última década ''Desonra'', ''A Vida dos Animais'', ''À Espera dos Bárbaros'', ''Dostoiévski, o Mestre de São Petersburgo'', ''A Idade do Ferro'', ''Cenas de uma Vida'', ''No Coração do País'' e ''Terras de Sombras''. São obras pautadas por uma concisão narrativa clara e direta em que as histórias apresentadas invariavelmente passam por personagens que experimentam fortes sentimentos e sensações que se escondem nos escuros labirintos do ser humano.
Nascido em 1940, Coetzee foi durante anos professor da Universidade do Cabo, África do Sul. Atualmente reside nos Estados Unidos, lecionando na Universidade de Chicago. Sua literatura é acessível a qualquer tipo de leitor, pois não se propõe a realizar nenhuma experiência ou inovações com a linguagem literária. Seu grande interesse reside no conteúdo, trabalhando com competência a forma narrativa para que isso aconteça.
A Editora Companhia das Letras lançou em junho último um dos seus romances mais representativos, ''Vida e Época de Michael K'', que foi agraciado com o prêmio Booker Prize de 1983, projetando sua literatura mundialmente. Nele, Coetzee apresenta a história de Michael, um jardineiro que vaga pela África do Sul, no meio de uma guerra civil, tentando apenas viver da maneira mais simples possível e longe do contato humano. Um contato que tanto pelo desprezo como pela caridade desperta a sensação de vazio.
Com lábiopalatais, uma capacidade intelectual reduzida e apatia frequente, Michael começa sua maratona quando decide deixar a capital e levar ao interior sua mãe doente, uma empregada doméstica que se vê incapacidade de continuar trabalhando na casa de uma rica família branca. Sem recursos, coloca a mãe num carrinho de mão percorrendo estradas em meio a toda a violência e miséria da guerra civil.
No meio do caminho a mãe morre e Michael passa a vagar pelos campos como um solitário animal em busca de comida e abrigo. Longe de representar sofrimentos, esse estilo de vida é suficiente para apaziguar suas ansiedades. Sua maior obra é cultivar abóboras, beber água da chuva e dormir em buracos entre pedras.
O vazio que ocupa o corpo e a mente de Michael é de uma qualidade sublime em sua simplicidade, mesmo sendo melancólica e cercada de sofrimentos voláteis. Embora pareça ser um completo alienado ao mundo a sua volta, inclusive frente a situação de violência e miséria da guerra, ele está mais próximo de optar por uma maneira instintiva de antiação frente o caos social: o isolamento completo na casa do vazio. Como de deixasse aos outros as formas mais cruas de ação, as formas articuladas em nome de interesses que se evaporam aos primeiros ventos da verdade.
Em alguns momentos, Michael chega à conclusão que, diante de sua condição existencial, a caridade que recebe é muito mais dilacerante, mais dolorida, do que o próprio abandono em que vive. Percebe que a caridade é uma desculpa daqueles que a executam. Ou seja, ela faz um bem maior a quem a oferece dos que a quem a recebe.
''Vida e Época de Michael K'' é um romance que retrata um homem que não consegue, ou simplesmente se recusa, agir sobre a realidade que vive. Para ele, essa realidade é totalmente desprovida de sentido e opta pelo isolamento no completo, suportando os sofrimentos externos como suporta o sol nascendo, a chuva caindo e a noite chegando. Elege o vazio a forma de sobrevivência mais adequada quando a realidade é tão absurda quanto um pássaro se sufocando de ar.
Serviço:
- ''Vida e Época de Michael K'' de J. M. Coetzee, Editora Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 216 páginas, R$ 31,00.


