LEITURA - O abismo do pensamento
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Um homem dotado de poderes sobrenaturais. Um homem capaz de ler os pensamentos das pessoas, mover objetos com a mente, entortar colheres e garfos apenas com o olhar. Um mago que ganha fama, poder e dinheiro realizando demonstrações públicas por países europeus no final do século 19.
Um belo dia, numa de suas demonstrações, cientistas positivistas decidem desmascará-lo e revelar que o sujeito não é exatamente um mago, mas um ilusionista picareta. Utilizando argumentos lógicos, o grupo consegue provar que seus feitos não passam de números de mágica barata.
Carimbado como falsário, humilhado publicamente, o homem decide fugir para um país da América Latina. Escolhe a Argentina, lugar onde ninguém nunca ouviu falar de suas atividades ocultistas nem de sua nova fama de picareta.
Chamado de Bianco, esse mago é o protagonista de ''A Ocasião'', romance do escritor argentino Juan José Saer (1937 - 2005), um dos principais expoentes da chamada geração pós-Borges. Criador de uma literatura nomeada de ''ficção da matéria'', foi um dos lendários escritores argentinos que optaram pelo exílio voluntário.
Publicado pela editora Companhia das Letras, o romance possui como pano de fundo o processo de formação da Argentina através dos milhares de trabalhadores imigrantes que chegaram ao país no século 19. Assunto recorrente na literatura de Juan José Saer, as relações entre estrangeiros e nativos são tratadas como história cultural.
Ao chegar em território argentino, o mago Bianco decide esconder seus poderes sobrenaturais e fazer o papel de homem comum. Adquire uma grande extensão de terra em pleno pampa argentino, uma região miserável, desabitada e desértica. Como novo fazendeiro, começa a criar gado com modernas técnicas de pecuária. Ao longo dos anos, com sucesso em suas atividades, torna-se um homem rico e influente na região.
Junto com a fama, poder e riqueza, surgem seus novos tormentos. Na mesma velocidade em que aumenta sua riqueza, seus poderes sobrenaturais diminuem na mesma proporção. Na mesma velocidade que ama sua jovem esposa, acredita que o filho que ela carrega na barriga seja de seu único amigo argentino e sócio em seus negócios.
Na narrativa de ''A Ocasião'', Juan José Saer trabalha com descrições de elementos internos e externos de maneira simultânea. Usando frases longas, coloca lado a lado, utilizando apenas vírgulas, o tormento mental do personagem e o espaço físico em que está inserido.
O vazio e árido espaço geográfico dos pampas dialoga com os férteis e abundantes pensamentos do personagem. A relação entre essas duas atmosferas faz do romance uma viagem em direção ao insolúvel. Passado e presente comem no mesmo prato raso.
A história desenhada por Juan Saer em ''A Ocasião'' é pontuada por descrições e percepções inconclusivas. Embora os fatos ocorram num amplo espaço físico, tudo acontece num espaço interno, restrito ao pensamento. O próprio final do romance instaura no leitor a sensação de abismo convertido em norma.
Juan José Saer nasceu na província de Santa Fé em 1937. Em Bueno Aires, atuou como professor universitário ministrando aulas sobre a história do cinema. Seguindo os mesmo passos do escritor Julio Cortazar (1914 - 1984), trocou a Argentina pela França em 1968, onde passou a ministrar aulas de literatura na Universidade de Rennes. Nunca mais voltou a residir na Argentina. Morreu em Paris, em 2005, vítima de câncer. Além de ''A Ocasião'', a Companhia das Letras publicou outros quatro romances do escritor: ''Ninguém Nada Nunca'' (1997), ''A Pesquisa'' (1999), ''As Nuvens'' (2008) e ''O Grande'' (2010).
Serviço:
A Ocasião
Autor - Juan José Saer
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Paulina Wacht e Ari Roitman
Páginas - 190
Quanto - R$ 35,00
Fragmento:
Vigorosos, disciplinados e selvagens, parecem a massa arcaica do ser deslocando-se como um vento cósmico, dividida num número indefinido de indivíduos idênticos, tal como uma infinidade de estrelas separadas pelo negrume mas todas constituídas pela mesma substância, ou uma fileira de álamos brotados da mesma semente e que, observados de certo ponto do espaço, superpõem-se e se fundem até dar a ilusão de serem um só. Ou semelhantes às gotas descontínuas e finas que vão caindo do céu e que, formando a garoa, começam a dar brilho às coisas espalhadas no vazio cinzento com lampejos atenuados e úmidos. Bianco entende que a tropilha, sem dono, percorre a planície em busca de campos verdes para passar o inverno, e começa a correr na direção dela com a intenção disparatada de detê-la, apropriar-se dela, domesticá-la, a tal ponto a corrida estrepitosa, inesperada, dos cavalos arrebatou seu sangue frio, a fachada de calma e decisão inalterável que já é uma lenda para os outros, embora em seu interior, atrás da máscara que o cabelo e as sobrancelhas cor de tijolo dão um ar ao mesmo tempo estranho e pueril, atrás dos lábios amargos, a trepidação seja às vezes tão intensa quanto aquela que os cascos produzem na planície.
(Fragmento de ''A Ocasião'', de Juan José Saer)


