LEITURA - Novas formas de sinceridade
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de abril de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Aquilo que é dito possui importância inegável, mas como é dito possui importância primordial. Forma e conteúdo caminham juntos. Esse princípio é parte intrínseca da literatura desde sua gênese e se alastrou por outros territórios, entre eles o jornalismo.
A vertente mais recente do jornalismo, chamada de "novo ensaio" ou "reportagem ensaística", propõe conversar com o leitor de maneira clara, sem sisudez, sem embromação. Um dos principais nomes dessa vertente é o jornalista norte-americano John Jeremiah Sullivan. Seus textos estão reunidos em "Pulphead O Outro Lado da América", primeiro livro de sua autoria publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras. São treze textos de temas e assuntos variados que retratam faces pouco exploradas da vida americana.
A escrita de John J. Sullivan parte da clareza e da sinceridade para estabelecer empatia com o leitor. E essa empatia se estende naturalmente para o tema, para o assunto tratado. Seus textos geralmente não começam com uma tese predeterminada a ser comprovada no final. Seus textos descrevem o processo de conhecer o assunto e aceitar as mudanças de entendimento no decorrer da escrita.
Para atingir clareza e sinceridade, John Sullivan utiliza ferramentas básicas: didatismo, percepção e experiência pessoal. Seu olhar não é o clássico olhar externo que busca o distanciamento para melhor compreender o assunto. Seu olhar incorpora o tema, faz parte do assunto, utiliza a experiência individual para estar dentro do processo de compreensão do tema.
No texto "Sobre Este Rock", por exemplo, o jornalista parte para cobrir o Festival Cross-Over, o maior festival de rock cristão a céu aberto dos Estados Unidos, uma espécie de Woodstock de Jesus que reúne uma multidão de jovens de toda parte do país. No início Sullivan revela desdém sobre o assunto, mas, ao longo da escrita, começa a entender que o interessante não reside no rock cristão com suas centenas de bandas de sucesso, mas na história dos jovens comuns que vivem o festival. Ou seja, o público. O desdém cai por terra para revelar que todo jovem passa por uma fase religiosa para viver um processo de socialização, não necessariamente um processo de espiritualidade.
No texto "Concentrando-se no Que é Realmente Real", Sullivan acompanha alguns participantes de reality shows (tipo ex-BBBs) na vida real. A vida real, no caso, consiste em frequentar profissionalmente baladas, eventos, exposições, shows, etc. Ao lado dessas figuras, logo surge a sensação de que ele não está convivendo com pessoas reais em ambientes reais, mas com pessoas interpretando papeis num reality show que se prolonga para todos os lugares. Um jogo gosmento entre a realidade falsificada e falsidade da realidade.
Em "Violência dos Inocentes", a partir da missão de escrever uma matéria sobre o futuro da raça humana, o autor apresenta uma tese inusitada defendida por cientistas: existe um crescente florescimento do ódio dos animais em relação aos humanos. Segundo casos exemplares, os animais de todo o mundo, inclusive os domesticados, estariam com sangue nos olhos para trucidar os humanos. Oncinha pintada e coelhinho peludo seriam capazes de eliminar a humanidade do planeta. Uma guerra entre homens e animais estaria a caminho. No final do texto Sullivan revela que inventou algumas informações para deixar o argumento mais colorido numa clara ironia para demonstrar como a informação pode ser manipulada, alterada ou mesmo inventada.
O "novo ensaio" de John J. Sullivan não é nenhuma novidade. Trata-se de um prolongamento natural do "new journalism" (também conhecido como "jornalismo literário", ou "literatura não ficcional") que floresceu nos Estados Unidos na década de 1960. Seus principais expoentes foram Tom Wolf, Truman Capote, Gay Telese, entre outros.
O que parece ficar evidente é que novas experiências de escrita demonstram que os atuais padrões formais do texto jornalístico, pautado apenas pela objetividade e a concisão do texto, não conseguem dar conta da complexidade da realidade contemporânea. Aquilo que os detalhes dizem, e como eles dizem, exigem formas diferenciadas de escrita.
Serviço:
"Pulphead O Outro Lado da América"
Autor John Jeremiah Sullivan
Editora Companhia das Letras
Tradução Chico Mattoso e Daniel Pellizzari
Páginas 328
Quanto R$ 54 e R$ 34,50 (e-book)


