LEITURA - Nos braços do absurdo
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de janeiro de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Normalmente são os habitantes da cidade que invadem os shoppings. Eles ocupam um espaço geográfico específico e as pessoas se deslocam até lá. Mas, se alterarmos o foco de visão, também podemos dizer que normalmente são os shopping que invadirem os habitantes da cidade.
Não é difícil imaginar um shopping invadindo uma cidade, crescendo lentamente, envolvendo ruas, bairros, praças e casas. Até o belo dia em que os habitantes, ao abrirem a porta de suas residências, se vêem dentro de um agitado shopping. Percebem que não precisam mais ir até ele, estão vivendo dentro dele, estão morando no interior de um deslumbrante templo de consumo.
Essa possibilidade poder ser encarada como ficção. Como também pode ser encarada como a mais pura realidade. No mundo contemporâneo, ficção e realidade se confundem a tal ponto que qualquer um pode queimar os miolos sem conseguir definir os limites entre uma coisa e outro. A literatura é, neste sentido, a ''prova dos nove''.
O escritor paulista radicado em Curitiba Paulo Sandrini, faz dessa ausência de limites o componente básico de seus contos. Seu novo livro, ''Códice d'Incríveis Objetos'', lançado pela Travessa dos Editores, insere elementos ficcionais na realidade e elementos da realidade no absurdo quase fantástico. Dessa maneira elimina as fronteiras entre um e outro para sugerir que o real, aos olhares externos, é completamente absurdo.
Alguns dos contos de ''Códice d'Incríveis Objetos'', narra história de objetos pouco comuns: um capacete que confere a imortalidade para o usuário, um telefone celular utilizado para a comunicação entre vivos e mortos, uma sandália com a capacidade de voar e um braço mecânico. A atenção das narrativas não está centrada nos objetos, mas na aquilo que provocam na vida de quem os utilizam. Irônicas situações que nascem quando as pessoas deixam de utilizar os objetos para serem utilizados por eles.
Outros contos possuem um irônico caráter fabular, onde situações próximas da realidade são tratadas de maneira imaginativa, próximas do fantástico, trocando figurinha com o absurdo. Há a história de um bando de feios, sujos e malvados que resolvem conquistar uma cidade e acabam sendo conquistados por ela. Há também a história de um lindo condomínio horizontal que se torna um caos humano, bem como a história onde um shopping que invade as residências de toda uma cidade.
Em ''Códice d'Incríveis Objetos'', Sandrini dá um passo a frente em relação a seu livro anterior ''A Arte de Dormir em Pé'' (Travessa dos Editores, 2003). Uma das características dos contos é trabalhar com um humor sutil fazendo uso das ferramentas da crueldade. Desenha histórias onde a crueldade aparece da maneira tão discreta, e tão incorporada pela realidade, que passa a ser encarada com humor cético. Isso fica extremamente visível no conto ''Nano''.
Em ''Nano'' uma empresa desenvolve um minúsculo robô que, inserido na corrente sanguínea de um homem, é capaz de desentupir artérias e dizimar células cancerígenas com total eficiência. Uma tecnologia que vale milhões. Assim, no dia em que o robozinho resolve pregar uma peça nos cientistas, escondendo-se no corpo de um paciente, os médicos não pensam duas vezes em retalhar cada milímetro do sujeito para reaver o robô.
A literatura de Sandrini sugere que, se queremos nos aproximar do absurdo, basta abraçar a realidade. Se queremos regurgitar a realidade, basta devorar o cardápio do absurdo.
Serviço:
Livro ''Códice d'Incríveis Objetos'' de Paulo Sandrini, Travessa dos Editores, 168 páginas, R$ 28,00.
Nem tudo no período de adaptação, como já é sabido, foi uma maravilha. Mas o mais doloroso mesmo e isso parece que nem ocorreu, pois o sucesso que obtivemos cuidou de mitigar as perda foram nossas duas filhas terem sucumbido durante o processo. Um tanto compulsivas, deslumbradas com o novo mundo que se formava ao redor, passaram a ter impulsos de consumo e a engordarem exageradamente de tanta gordura e açúcar que consumiam e, num dia, ao experimentarem umas roupinhas de grife feitas para serem usadas bem apertadinhas, as duas, assim, simultaneamente (como em outros casos no mesmo período relatado na mídia), morreram em decorrência de terem a circulação sanguínea cortada. Quase explodiram de tanto inchaço, para ser bem sincero. Sem espaço para maiores tristezas, (as perdas às vezes também são parte de determinados processos de crescimento), cuidamos de fazer negócio com as gorduras delas: uma marca de sabonetes artesanais que possuía uma loja nas imediações nos comprou a gordura das nossas meninas a preço de ouro (sabonete de gordura humana havia se tornado uma verdadeira febre de consumo).
(Fragmento de ''Códice d'Incríveis Objetos'', de Paulo Sandrini)
Códice


