LEITURA - No escurinho de Tóquio
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de novembro de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Um assassino pode ter razões para o crime que a própria razão desconhece. Assim, torna-se necessário criar razões, desenvolver sentidos para elas. Tudo para justificar a violência contra a vítima. Tudo para ludibriar as amarras da moral em busca de uma suposta verdade.
Para realizar tal tarefa, muito mais que sangue frio, é necessário inteligência. Em seu romance ''Miso Soup'', o escritor japonês Ryu Murakami parte dessa premissa para colocar, num mesmo espaço, violência e compaixão. Lado a lado, violência e compaixão descobrem que possuem algo em comum.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, ''Miso Soup'' narra a experiência vivida pelo jovem Kenji nos três últimos dias do século 20 pelas ruas de Tóquio. Kenji ganha a vida como guia de turismo sexual. Sua especialidade é acompanhar turistas estrangeiros pelas ruas de Kabuki-cho, tradicional bairro de prostituição e boemia da capital japonesa.
Seu novo trabalho é acompanhar Frank, um executivo norte-americano, por três noites, pelas atrações do comércio sexual do bairro. A oferta é vasta: bares com mulheres em trajes íntimos, casas de prostituição, bares de strip-tease, clubes masoquistas, cabines de masturbação, ''encontros remunerados'' e muito mais.
Ao conhecer seu novo cliente, Kenji percebe tratar-se de um homem estranho e dissimulado. Impressão que se acentua após a primeira noite acompanhando-o pelas atrações sexuais, quando sangrentos assassinatos passam a ocorrer no bairro. E em pouco tempo, Kenji começa a acreditar que seu cliente é o responsável pelas mortes.
Mesmo com medo, o jovem fica fascinado por Frank, sem conseguir se desvencilhar dele. Mesmo correndo perigo de vida, é impelido a ouvir a história do assassino, um ''serial killer''. Sua sede de sangue começa na infância e segue em frente casas de recuperação, hospícios e penitenciárias. Para ele, em sua insaciável sede de sangue, as pessoas merecem morrer por levarem vidas mesquinhas e desprovidas de sentido, ''elas pedem para morrer''.
Ryu Murakami não procura fazer de ''Miso Soup'' um romance policial no sentido clássico. Não há ninguém buscando desvendar crimes. O próprio assassino é revelado ao leitor logo no início da narrativa. O foco do autor é retratar uma relação dúbia entre criminoso e vítima, entre assassino e delator. Kenji e Frank chegam a um ponto de cumplicidade onde ocorre uma troca de informações entre a violência e a compaixão.
Murakami também realiza um retrato frio do Japão atual, onde novas gerações não conseguem encontrar sentido nas tradições milenares e passam a cultivar novos valores culturais. Nesse contexto, o consumo desenfreado, as diversões sexuais e as respectivas perversões que povoam o escurinho de Tóquio, revelam a estagnação de uma identidade. O próprio título da obra ''Miso Soup'' (referência à ''sopa de missô'', elemento típico da culinária japonesa conhecido como ''missoshiro''), remete a algo pequeno e corriqueiro que possui um valor diluído, perceptível apenas aos olhos de fora, no caso, o estrangeiro.
Murakami nasceu na cidade de Nagasaki poucos anos após a explosão da bomba atômica. Baterista de uma banda de rock, acabou abandonando a música para se dedicar à literatura e ao cinema. Levou para as telas alguns de seus romances, entre eles ''Tóquio em Decadência'' (1991). Popular em seu país algumas de suas histórias foram publicadas em forma de folhetim em jornais , é mais conhecido como autor do romance ''Azul Quase Transparente'' (Editora Brasiliense, 1986), romance que impulsionou sua carreira.
''Miso Soup'' pode ser considerado mais um romance que focaliza a intrincada relação entre assassino e vítima. Uma relação onde sempre existe um elemento inesperado capaz de unir, num único espaço, violência e compaixão. Elemento que rompe com as regras normais para instaurar o desconhecido.
Serviço:
- ''Miso Soup'' de Ryu Murakami, Editora Companhia das Letras, tradução de Jefferson José Teixeira, 216 páginas, R$ 39,00.


