A língua é como o coração. Sente todas as coisas que é capaz de sentir. Mas se, por acaso, um punhal cortar o coração, a morte aparece. Se, por outro acaso, um punhal cortar a língua, a morte não se apresenta.

O corpo não sobrevive sem coração. Mas sobrevive sem língua. Justamente aquele órgão capaz de brincar, seduzir, revelar, falar e mentir. E também aquele capaz de narrar, capaz de gerar linguagem.

Em seu novo romance, "Foe", o escritor sul-africano J. M. Coetzee investe sobre as implicações da língua na construção da memória e na própria criação da realidade. A língua, em questão, não corresponde apenas ao órgão da fala, mas também a criadora de narrativa. Aquela capaz de converter a experiência da existência humana em linguagem.

"Foe" é o relato de Susan, uma mulher inglesa que, no início do século 18, chega ao Brasil. Na Bahia, procura encontrar sua filha misteriosamente raptada em Londres e supostamente arrastada para solo brasileiro. Após vasculhar a Bahia sem achar nenhum sinal da filha, embarca num navio de volta para a Inglaterra.

No meio do oceano Atlântico, os marinheiros do navio promovem um motim, tomando o comando da embarcação. Matam o capitão e expulsam Susan. Colocam a mulher num pequeno bote e a abandonam no mar.

Após dias à deriva e próxima da morte, Susan aporta numa ilha deserta e desconhecida. No lugar é acolhida por dois outros náufragos: um homem chamado Cruso e seu escravo Sexta-feira. Ambos chegaram à ilha após o naufrágio de um navio que fazia o transporte de escravos da África para o Brasil. Cruso era um comerciante inglês. Sexta-feira era um africano capturado ainda garoto por traficantes de escravos. Como os únicos sobreviventes do naufrágio do navio negreiro, os dois reproduzem, na nova realidade, a velha condição histórica colonialista: Cruso como senhor e Sexta-feira como servo.

Logo nas primeiras páginas de "Foe" fica evidente para o leitor que Coetzee está recontando o clássico "Robinson Crusoé", obra do escritor inglês Daniel Defoe (1660 – 1731) publicado originalmente em 1719. A diferença estaria no fato da história ser narrada através de uma ótica feminina, através da voz de Susan.

Com o passar do tempo, Susan compreende que, apesar das dificuldades de sobrevivência, Cruso não deseja ser resgatado. Não quer sair da ilha e voltar à civilização. Ele havia fundado um país particular onde era o único soberano com um servo fiel, um escravo obediente.

Susan também compreende que o silêncio e a servilidade de Sexta-feira não se deve à sua condição ou cultura. Deve-se ao trauma de sua mudez, já que sua língua foi devidamente cortada. Susan só não sabe se ela foi cortada pelos traficantes de escravos que o aprisionaram ou pelo próprio Cruso como exercício de dominação.

Um belo dia, um navio aparece na ilha e resgata os três náufragos. No meio da viagem, Cruso, devidamente adoecido, falece. Susan assume a missão de tutora de Sexta-feira e quando aportam na Inglaterra, precisa começar a vida do zero. Para conseguir alguns trocados, procura o escritor Daniel Defoe com a intenção de vender a história de Cruso e Sexta-feira numa ilha deserta.

Na realidade, em "Foe", M. J. Coetzee utiliza a lenda de Robinson Crusoé para desenvolver uma discussão sobre a linguagem. O grande personagem da narrativa não é Cruso, nem Defoe, nem Susan. O peso de personagem potencializador cai sobre Sexta-feira. Por não possuir língua, voz e linguagem, ele sintetiza a alma da tradição narrativa. Sem linguagem determinante, ele assume a imagem do exilado da civilização. O eterno ausente e tutelado pela voz alheia. Ele não possui história própria, sua história é criada por pessoas que dominam a linguagem.

John Maxwell Coetazee nasceu na Cidade do Cabo em 1940. Seus romances começaram a ser publicados no Brasil do início da década de 1990. Ganhou grande popularidade ao receber o prêmio Nobel de Literatura de 2003. Autor de mais de duas dezenas de livros, reside atualmente na Austrália, onde atua como professor de literatura.

O corpo sobrevive sem a língua. Mas não sobrevive sem coração. Se a língua é capaz de traduzir as coisas do coração, quem sabe o coração seja capaz de traduzir a língua dos náufragos da linguagem.

Serviço:
"Foe"
Autor – J. M. Coetzee
Editora – Companhia das Letras
Tradução – José Rubens Siqueira
Páginas – 144
Quanto – R$ 39,90

O senhor erra muito flagrantemente ao não distinguir os meus silêncios e os silêncios de um ser como Sexta-feira. Sexta-feira não tem nenhum domínio sobre palavras e, portanto, nenhuma defesa contra ser remodelado dia a dia em conformidade com os desejos de outros. Digo que ele é um canibal e ele se torna um canibal; digo que é um lavador de roupas e ele se torna lavador de roupas. Qual é a verdade de Sexta-feira? O senhor responderá: ele nem é canibal, nem lavador de roupas; estes são menos nomes, não tocam sua essência, ele é um corpo substancial, ele é ele mesmo. Sexta-feira é Sexta-feira. Mas não é assim. Não importa o que ele é para si mesmo (ele é alguma coisa para si mesmo? – como poderá nos dizer?), o que ele é para o mundo é o que eu faço dele. Portanto o silêncio de Sexta-feira é um silêncio desamparado. Ele é o filho de seu silêncio, um filho não nascido, uma criança esperando para nascer que não pode nascer. (Fragmento de "Foe", de J. M. Coetzee)
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