Ian McEwan: escritor inglês tem mais de 20 romances publicados
Ian McEwan: escritor inglês tem mais de 20 romances publicados | Foto: Fotos: Divulgação



Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", o escritor brasileiro Machado de Assis coloca a narrativa na voz de um sujeito deitado num caixão. Devidamente apodrecendo no interior de uma sepultura sob sete palmos de terra.
Em "Enclausurado", o escritor inglês Ian McEwan coloca a narrativa na voz de um feto na barriga da mãe. Devidamente crescendo e desejando descobrir o mundo exterior e com sede de vingança.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "Enclausurado" é o novo livro de Ian McEwan. A obra vem fazendo sucesso na Inglaterra e Europa por sua abordagem pouco usual. O personagem narrador, no caso um feto de oito meses, carrega um sentimento de vingança incontrolável que beira o desejo de sangue.
O romance utiliza o argumento básico de "Hamlet", tragédia criada por William Shakespeare entre os anos de 1559 e 1661. Com humor e sarcasmo, Ian McEwan coloca o lendário príncipe Hamlet na pele de um feto. Um embrião que acompanha, com mãos e pés atados dentro da placenta, a própria mãe e seu amante tramarem o assassinato de seu pai. Detalhe: o amante é seu tio, irmão mais novo de seu pai.
Pode parecer complicado, mas tudo assume a forma das novas famílias contemporâneas. John, pai do futuro bebê, é um poeta em decadência que tentou viver em nome da literatura, mas acabou no fracasso. Trudy, a mãe que carrega o feto no ventre, já não ama mais o marido, na verdade o odeia e acaba caindo nos braços de Claude, irmão de John. Claude nutre, igualmente, um ódio antigo pelo irmão John, e se une à Trudy num plano para assassiná-lo. O casal de amantes não deseja apenas a morte de John, deseja também colocar as mãos numa fortuna que ele acaba de herdar.
Toda a trama e os acontecimentos são apresentados pela ótica do feto, alguém que está começando a conhecer não apenas o ser humano, mas também o mundo. Ingenuidade e hipocrisia são coisas que ele não possui. Encara as coisas como elas se apresentam. E nisso reside o humor de "Enclausurado". Aquele que ainda não nasceu, por exemplo, adora quando sua mãe bebe umas doses a mais. É sua oportunidade de pirar em divertidas cambalhotas na piscina da placenta.
Sua maneira de entender o sexo, entre a mãe e o amante, chega próximo das fronteiras do humor. Sua percepção não tem amarras: "Nem todo mundo sabe o que é ter o pênis do rival do seu pai a centímetros do seu nariz. A essa altura tardia, eles deviam estar se contendo por minha causa. A cortesia, senão um motivo clínico, assim exigiria. Fecho os olhos, aperto as gengivas, me apoio nas paredes uterinas. Essa turbulência sacudiria as asas de um Boeing. Minha mãe estimula seu amante, o incita com gritos dignos de um parque de diversões. Parede da Morte! Toda vez, a cada movimento do pistão, temo que ele rompa a barreira, perfure os ossos ainda moles de meu crânio e irrigue meus pensamentos com a essência dele, com o creme abundante de sua banalidade. Depois, com o cérebro afetado, vou falar e pensar como ele."
"Enclausurado" apresenta os impasses de um feto que, diante das informações internas e externas que recebe na barriga da mãe, sabe que o mundo dos humanos não é um mar de rosas, mas um jardim de espinhos. E vive uma versão contemporânea do dilema de Hamlet: nascer ou não nascer. Se por um lado sua melhor escolha seria ficar onde está, resguardado no útero, por outro lado, precisa nascer, sair para o mundo e defender seu pai da morte, da maldade da mãe e da crueldade do tio. E diante de sua total imobilidade e sem nenhum poder de ação, ele executa o terror que apenas feto é capaz de realizar: rasgar a placenta com suas próprias unhas. Afinal tudo não passa de uma tragédia.
Ian McEwan é um dos grandes escritores ingleses da atualidade. Nascido em 1948, possui mais de 20 romances publicados. Uma das características de sua literatura está em trabalhar com abordagens diferenciadas em cada uma de suas obras. No Brasil, entre seus 12 livros publicados, destacam-se "Reparação" (2002), "O Inocente" (2003) "Sábado" (2005), "Na Praia" (2007), "Solar" (2010), "Amor Sem Fim" (2011), "Serena" (2012) e "A Balada de Adam Henry" (2014).

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Nascer ou não nascer, eis a questão



Serviço:
"Enclausurado"
Autor – Ian McEwan
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Jorio Dauster
Páginas – 200
Quanto – R$ 39,90

Gosto de compartilhar uma taça com minha mãe. Você talvez nunca tenha experimentado, ou já terá esquecido, um bom Borgonha (o preferido dela) ou um bom Sancerre (também seu preferido) decantado através de um placenta saudável. Antes mesmo que o vinho chegue, ao som da rolha ser retirada eu o sinto no rosto como uma carícia de uma brisa de verão. Sei que o álcool reduzirá minha inteligência. Reduz a inteligência de todo mundo. Mas, ah, um pinot noir alegre e rosado ou um sauvignon com toques de groselha me fazem dar saltos e cambalhotas em meu mar secreto, ricocheteando nas paredes de meu castelo, desse castelo elástico que é meu lar. Ou assim era quando eu tinha mais espaço. Agora usufruo meus prazeres de maneira tranquila, e na segunda taça minhas especulações florescem com aquela liberdade chamada poesia. Meus pensamentos de desdobram em bem torneados pentâmetros, com as frases cabendo em cada verso ou transbordando para o verso seguinte a fim de oferecer uma variável agradável. Mas ela nunca toma a terceira taça, o que me deixa furioso. "Preciso pensar no bebê", ouço-a dizer enquanto cobre a taça com a mão puritana. É quando sinto vontade de pegar meu cordão oleoso, como se fosse um cordão de veludo de uma mansão campestre com muitos criados, e puxar com força para ser servido. Vamos lá! Mais uma rodada para os amigos! (Fragmento de "Enclausurado", de Ian McEwan)
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