O artista que pinta quadros mas não consegue ficar longe deles. Não vende, não doa. A costureira que faz vestidos e não consegue ver as peças no corpo de outra pessoa. Não vende, não empresta. O luthier que constrói instrumentos e não consegue entregá-los nas mãos de nenhum músico. Não vende, não dá, não troca.
Existem pessoas que não conseguem ficar longe daquilo que criam. Não suportam ficar longe de suas criaturas. Criador e criaturas passam a ser um único organismo. A psicologia classifica essas pessoas como portadoras de Síndrome de Cardillac.
O nome Cardillac não foi dado em homenagem ao descobridor da patologia como geralmente acontece no universo científico. Foi na verdade de uma homenagem a um dos personagens criados pelo escritor alemão E. T A. Hoffmann (1822 - 1776), um ourives que não conseguia ficar longe das jóias que fabricava.
Cardillac é personagem da novela ''A Senhorita de Scuderi'' que acaba de ser lançada pela editora Civilização Brasileira. Trata-se da primeira edição brasileira de um tipo de história onde o sinistro senta no sofá da sala e espera o chá ser servido. O próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856 - 1939), chamava a obra de Hoffmann de ''literatura sinistra''. Chegou até a utilizar contos do escritor para exemplificar algumas de suas ideias sobre os labirintos da psique.
Ao contrário que se poderia esperar, Cardillac não é o personagem principal de ''A Senhorita de Scuderi'', mas sim Magdeleine de Scuderi, uma velha solteirona autora de romances água com açúcar que perambulava pela corte de Luiz XIV. Seu papel é tentar tirar da cadeira um jovem acusado de uma série de assassinatos ocorridos pelas ruas de Paris.
Cardillac é admirado como o melhor ourives da cidade. Na sua porta há fila de nobres desejando uma de suas joias. Mas ele guarda um segredo sinistro e diabólico. Não consegue ficar longe das joias que cria e leva uma vida diabólica paralela na missão de reaver as peças que fabrica e vende. Sua tática é assassinar e roubar seus clientes para ter de volta suas criações.
A culpa pelos crimes recai sobre as costas do jovem protegido da senhorita. Um jovem que trabalha justamente como auxiliar de Cardillac. Cabem a ela todos os esforços e estratégias para provar a inocência do rapaz. Para isso ela faz uso do instrumento de seu ofício de escritora: a arte de contar histórias.
Percorrendo figuras ilustres da justiça e da política da corte, inclusive o próprio rei, a senhorita narra toda a história que descobriu sobre a verdade dos crimes. Sua capacidade de narrar se apresenta tão sedutora que acaba convencendo todos daquilo que até então parecia completamente improvável e absurdo.
Não é sem motivo que ''A Senhorita de Scuderi'', escrita em 1820, é considerada a primeira história policial da literatura alemã. Embora diferente da ideia da literatura policial como conhecemos hoje, a novela de E. T. A. Hoffmann revela que sempre há alguma coisa por trás de um crime. E é da competência da narrativa revelar esse elemento desconhecido, nebuloso e sinistro.
Ernst Theodor Amadeus Hoffmann nasceu em 1776 na antiga Prússia. Morreu vítima de sífilis em 1822. Compositor e crítico musical, criou uma série de sinfonias que considerava geniais e ficariam para a posteridade. Ledo engano. Sua música caiu no total esquecimento e suas histórias tornaram-se clássicos da literatura universal. Só o sinistro sobreviveu.

Serviço:
- A Senhorita de Scuderi
Autor - E. T. A. Hoffmann
Editora - Civilização Brasileira
Tradução - Marcelo Backes
Páginas - 144
Quanto - R$ 29,90

Fragmento:
Preso nesse labirinto criminoso, dilacerado pelo amor e pela aversão, pelo deleite e pelo horror, eu poderia ser comparado ao condenado ao qual um anjo graciosamente sorri, acenando suavemente, enquanto satã o mantém preso com garras ardentes, fazendo com que o amoroso sorriso devoto do anjo, no qual se espelha toda bem-aventurança do céu, transforme-se para ele na mais terrível das torturas... Eu pensei em fugir... Sim, pensei até mesmo em suicídio... Mas podeis me censurar minha digna senhorita, por eu ter sido tão fraco a ponto de não conseguir aniquilar com violência uma paixão que me acorrentava ao crime... Mas por acaso não estou pagando com uma morte vergonhosa por isso?
(Fragmento de ''A Senhorita de Scuderi'' de E. T. A. Hoffmann)

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