O passado pode ser encarado como um lago onde o pensamento joga os anzóis. Se alguma coisa morder a isca, só puxar para fora e descobrir o que é. Seja peixe, sapato, galho, cobra, pneu, monstro ou sereia.
O passado também pode ser encarado como um arquivo que o pensamento não tem acesso direto. Para acessá-lo, basta as ações do cotidiano serem o que são. Gestos e situações capazes de abrir gavetas sem nenhuma intenção predeterminada.
Em seu novo romance, "Por Escrito", a escritora carioca Elvira Vigna faz do cotidiano a porta mais imediata para o passado. Sem anzóis, sem lago, sem sentimentalismo caro ou barato.
Lançado pela editora Companhia das Letras, "Por Escrito" narra as lembranças de Izildinha, uma mulher que resolve escrever sobre as coisas do passado. Uma história feminina onde não existem flores, joias, salto alto, perfumes, vestidos sedutores ou mundos cor de rosa. Apenas o universo feminino sem nenhum tipo de idealização.
A narrativa desenvolvida por Elvira Vigna trafega entre passado e presente sem distinções marcantes. Tudo ao mesmo tempo, exatamente como a mente humana funciona. As gavetas do passado não acessadas através das ações cotidianas: trabalho, emprego, transporte, almoço, banho, passeio, sono, casa, etc. São as ações triviais do dia a dia que abrem espontaneamente as gavetas. Nada de chaves ou anzóis.
A trajetória de Izildinha, bem como a de sua família, é repleta de desencontros e impossibilidades. Tudo começa quando a patroa pega o marido e a mãe de Izildinha, então com 15 anos de idade, na cama do casarão da fazenda. Obrigada a deixar o emprego, a mãe muda-se para o Rio de Janeiro com Izildinha na barriga. Depois aparece Pedro, o segundo filho, igualmente sem pai.
Quando adulta, Izildinha se torna secretária de uma multinacional do comércio de café e mantém um amante, devidamente casado, ao longo de anos. Pedro, gay assumido, um belo dia decide se casar com uma bailarina russa que visita o Brasil. Mas, no dia da cerimônia, resolve abandonar a noiva no altar. Em alguns momentos os episódios narrados podem lembrar elementos da literatura de Nelson Rodrigues, mas ledo engano, eles vão além.
"Por Escrito" revela uma linguagem pouco comum na literatura brasileira dos dias atuais. A condução narrativa é um dos grandes elementos da literatura de Elvira Vigna. Nenhum fato é narrado objetivamente, apenas de viés. E, no caso, o viés vem carregado de mais informação do que a suposta objetividade. Até mesmo quando o segredo da família está próximo de ser revelado, não se trata de um segredo, mas de um fato que ninguém teve interesse de olhar.
"Por Escrito" é uma romance de desencontros e impossibilidades. Os acontecimentos não são percebidos quando eles acontecem, mas depois, através das lembranças. A memória não assume o papel de re-significar a existência, mas de realmente significar. Isso porque não há como reprocessar aquilo que ainda não foi processado.
A hipótese da narradora, no final de seu relato, é de que o ser humano não sabe o que faz no momento em que está fazendo: "É assim que as coisas são e acontecem, sem a pessoa perceber direito o que está acontecendo, a pessoa nem percebe o que está vendo. As coisas não são de fato vistas, ouvidas. Só depois, quando se para e se pensa. E se recupera, sem nem saber se o que está sendo recuperado estava lá de fato."
Nascida em 1947, na cidade do Rio de Janeiro, Elvira Vigna há décadas reside em São Paulo. Autora e ilustradora de premiados livros infantojuvenis, anos atrás centrou seu foco na literatura adulta. Possui oito romances publicados, entre os mais conhecidos estão "Deixei Ela Lá e Vim" (2006), "Nada a Dizer" (2010) e "O Que Deu Para Fazer em Matéria de Amor" (2012).
"Por Escrito" segue uma abordagem que está cada vez mais determinante na literatura contemporânea. A ideia de que, numa época de grande velocidade do aqui e do agora, a memória torna-se o único reduto privado da existência humana. Tudo existe o tempo todo, mas nada existe longe da memória.

Serviço:
"Por Escrito"
Autor – Elvira Vigna
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 312
Quanto – R$ 47 e R$ 33 (e-book)

Fragmento:
Você tinha essa espécie de van (agora não mais). Você abria o capô e oferecia – em vez de pães, bolos, queijos – atenções, gentilezas, um afeto constante. Em troca, para ficar estacionado no mesmo lugar (perto de mim), esperava pelos meus temperos mais fortes, e espontâneos. Acha a troca justa. E era o que ia acontecer. Você ia chegar, alô, querida, atencioso, afetuoso, e eu ia jogar, tal gasolina adulterada, um jorro de palavras que você não queria ouvir. No final, você faria uma pausa respeitosa antes de mudar de assunto, sem notar que mudar de assunto é exatamente o assunto. O nosso. E que, no hiato da mudança de assunto, estão incluídos a morte e os restos ridículos que qualquer morte deixa, ou seus indícios, seus anúncios. Como um câncer. Ou como os cheiros de um perfume caro e velho, bolsas de couro marrom já quase furadas, toalhas usadas. Pentes que ainda há um fio de cabelo, qual minhoca a caminhar em um ar endurecido, grudada no ar do cimento da morte, impossível de tirar. E volto, nítidas, vivas como são as coisas filmadas, às lembranças-inventadas-adivinhadas de você visto por Zizi naquela rua do Leblon em que há um café um do lado do outro.

("Por Escrito", de Elvira Vigna)

mockup