LEITURA - Na rota do caos
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de maio de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A floresta amazônica foi totalmente derrubada. Em seu lugar nasceu um enorme deserto parecido com o Saara. Apesar da tragédia, o lugar se transformou num grande empreendimento turístico. Enormes tendas coloridas foram instaladas no local para abrigar os brasileiros que têm sede de conhecer um deserto de perto.
A população rica do país vive isolada em condomínios cobertos por gigantescos protetores solares, já que qualquer pessoa que perambula pelas ruas corre o risco de adoecer devido à alta incidência dos raios solares. A população pobre vive em precárias regiões isoladas pela polícia, em bolsões reservados à miséria.
Todos os cidadãos brasileiros estão concentrados na região sul do país. As demais regiões foram vendidas para grandes corporações multinacionais ou não mais abrigam qualquer tipo de vida. A cidade de São Paulo é dividida em regiões específicas. Nenhuma pessoa pode trafegar pela cidade livremente sem prévia autorização de um estado cruelmente burocrático.
Toda a alimentação se tornou sintética. Animais e plantas viraram coisas raras. A água também se tornou luxo. A maioria dos habitantes bebe urina reciclada, come ovo artificial e se refugia do calor em roupas térmicas de alta tecnologia.
Esse Brasil abalado por impactos ambientais, desequilíbrios sociais e fúria econômica foi imaginado pelo escritor paulista Ignácio de Loyola Brandão há 25 anos no romance ''Não Verás País Nenhum''. Lançado originalmente em 1981, o livro seguia a direção de clássicos como ''1984'' de George Orwell (1903 - 1950) e ''Admirável Mundo Novo'' de Aldous Huxley (1894 - 1963). Uma literatura que não passeava pelas evidências da ficção científica, mas trafegava por aquilo que a realidade oferecia como possibilidades de um futuro próximo.
A primeira edição de ''Não Verás País Nenhum'' se esgotou em apenas uma semana. O fato que não estava exclusivamente vinculado ao nome de Loyola Brandão, autor conhecido do emblemático romance ''Zero'', de 1975. Graças a uma matéria veiculada pela televisão, a obra foi abraçada pelos leitores. Na época pouca gente conhecia coisas como ''aquecimento global'', ''buraco na camada de ozônio'' e ''padrões insustentáveis de produção e consumo''.
''Não Verás País Nenhum'' foi uma obra ficcional que chamou a atenção dos leitores para uma série de coisas que ganhava visibilidade na mídia apenas na forma da pontinha de um imenso iceberg. Em pouco tempo foi traduzida para várias línguas. Hoje, após 25 anos de sua edição original, os apontamentos trabalhados por Ignácio Loyola Brandão continua povoados de atualidade.
Para celebrar os 25 anos da obra, a Editora Global está lançando uma edição comemorativa que coincide com a vigésima quinta edição do livro. A grande novidade está num apêndice com a reprodução de originais datilografados, anotações manuscritas com desenhos da estrutura narrativa e registros do diário de criação da obra. Como curiosidade traz dois finais diferentes criados por Loyola Brandão e não utilizados no romance. A opção recaiu num terceiro texto, aquele conhecido até hoje.
O narrador de ''Não Verás País Nenhum'' é um sujeito chamado Souza, um homem que presenciou as mudanças do país, década de 80 até a um novo Brasil imaginário a partir de subsídios reais. Ex-professor de história, Souza é uma pessoa adaptada ao novo país até o dia em que vê nascer um buraco em sua mão. Sem nenhuma explicação racional, um buraco semelhante a um biscoito aparece na palma de sua mão.
A partir desse episódio, é impelido a uma série de situações que envolvem a estabilidade de sua vida num verdadeiro caos. Perdendo as poucas coisas que possui, esposa, casa e emprego estável, passa a vagar pelas ruas de uma São Paulo sitiada pela miséria, pelo medo e pela ganância. Nesse processo começa a ter noção do verdadeiro do país, da situação apática e desumana em que as pessoas estão imersas.
''Não Verás País Nenhum'' narra a trajetória de Souza da confortável estabilidade aos conflitos do caos. Da maciez da segurança aos ângulos agudos do risco. Da imobilidade da vaca de presépio à consciência conturbada e cortante. Ou seja, seu caminho percorrido está em perceber que alguma coisa está errada na ação dos homens, sem distinção cultural, econômica ou social. Nos pensamentos do personagem a degradação do planeta gerada pela mão humana dá origem à degradação humana. Da mesma forma que a degradação humana gera a degradação do meio ambiente e das relações sociais.
Apesar de trágico, o romance possui um otimismo sutil. Transparece que a destruição possui a capacidade de gerar energia construtiva. Mesmo que ela não seja evidente, mesmo que ela seja pouco provável, mesmo que ela esteja doente de percepção. É possível encontrar vários buracos narrativos em ''Não Verás País Nenhum'', mas nenhum buraco se revela maior do que aquele cavado pela humanidade.
Fragmento de ''Não Verá País Nenhum'', de Ignácio de Loyola Brandão
Eu me lembro bem dessa grande intoxicação. Ela coincidiu com nossa chegada das praias poluídas. Tivemos que voltar às pressas quando as pessoas começaram a morrer. Iam para a praia, contentes, tomavam banho de sol, mergulhavam. Saíam, se deitavam ao sol. No fim da tarde, morriam como barata sob inseticida.
Os prefeitos escondiam os fatos. Acusavam o governo de contribuir para a bancarrota das estâncias. Processavam os jornais. Protestavam contra a televisão. Processavam as famílias que ousavam dar declarações. Compravam todo mundo. E as pessoas desciam às praias, e morriam.
Hoje não se vai mais à praia. É triste chegar ao litoral e ver as cercas de concreto e farpado, isolando as áreas. O mar estagnado, negro. Praia? Se é que se pode chamar aquela areia negra, espessa, oleosa, de praia. Nem água do mar se consegue tirar para tratamento e distribuição à população.
Construíram-se todos os tipos de filtros para torná-la potável. Inúteis. A água termina o ciclo de refinação com uma cor cinza e um cheiro enjoativo de ovo podre. Parece vingança do mar. Então construíram emissários gigantescos. Os esgotos do país fluem para o oceano dia e noite.
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Serviço:
- Livro ''Não Verás País Nenhum'', de Ignácio de Loyola Brandão. Editora Global, edição comemorativa de 25 anos, 404 páginas, capa dura, R$ 65,00.


