LEITURA - Mulher não entra
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de setembro de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Décadas atrás, quando as mães passavam os dias empenhadas em limpar a casa, fazer almoço, lavar roupa e outras atividades cotidianas, geralmente um berro ecoava pela casa. Um grito que significava que as mães desejam paz para efetuar as atividades com tranquilidade, longe dos pentelhos dos filhos: ''Vai brincar na rua, moleque!''.
Apesar da fúria na voz materna, para os garotos a frase era uma espécie de dádiva. Isso porque o pior dos castigos era justamente o berro contrário: ''Hoje você não vai brincar na rua moleque!''.
Nos dias atuais, com intenso tráfego de automóveis e a violência urbana, tudo isso é coisa do passado. E se a infância é um universo exclusivo das crianças, a memória da infância, por sua vez, é universo exclusivo dos adultos. Hoje, na maioria das grandes cidades, as brincadeiras de rua existem apenas na lembrança daqueles marmanjos que eram garotos até meados da década de 70.
O artista gráfico Ettore Bottini realiza um passeio por essa época em ''Mãe da Rua'', obra lançado pela Editora Cosac Naify. O livro é um inventário das brincadeiras de rua de garotos urbanos das décadas de 50, 60 e meados de 70, uma espécie de breve dicionário memoralístico de coisas como bafo, pé-na-lata, futebol de botão, carrinho de rolimã, balão, estilingue, bola de gude, pião, pipa, etc. O autor deixa claro que se trata de um ''livro para ex-meninos''. As brincadeiras de meninas, ou de ambos os sexos, ficaram de fora.
Ettore Bottini parte de dois elementos básicos para retratar as brincadeiras de ruas masculinas do passado: a turma e o território. A turma era responsável pelos laços de amizade, onde a confiança funcionava como arma contra o inimigo, em geral outra turma. O território oferecia a capacidade de locomoção dentro de um espaço seguro, resguardado de qualquer tipo de ofensiva inimiga. Em outras palavras, os garotos formavam um de pequeno país estruturado pelas leis das brincadeiras de rua. Nesse universo o futebol ocupava lugar de destaque. Todo moleque sonhava em transformar o terreno baldio mais próximo em campinho de futebol. Unir turma e território com tranquilidade, mesmo que aparente.
A literatura possui alguns clássicos que eternizaram o universo masculino infantil de maneira iluminada. ''Os Meninos da Rua Paulo'', do escritor húngaro Ferenc Molnár (1878 - 1952) e ''As Aventuras de Tom Sawyer'', do norte-americano Mark Twain (1835 - 1910), são duas obras que merecem destaque. Em Londrina dois autores realizaram tarefa semelhante, retratando a infância em bairros da cidade das décadas de 60 e 70, ''Tempo de Infância'' (2000), de Walter Ney e ''Meninos de Kichute'' (2003), de Márcio Américo.
As atuais mamães politicamente corretas que colocarem as mãos em ''Mãe da Rua'' possuem grandes chances de ficarem com os cabelos em pé. As brincadeiras de rua eram invariavelmente pautadas pela competição e violência. Como Bottini não se limita a apresentar as brincadeiras, mas também em ensinar como são realizadas, é possível encontrar no livro instruções de como construir coisas hoje consideradas perigosas como balões, linha de cerol, ronqueira, bombinhas de São João, canudinho com ponta de alfinete e outras coisas mais.
Vale lembrar que os moleques sempre estiveram envolvidos com as brincadeiras perigosas. Elas geralmente envolviam ações físicas com a possibilidade de algum provável acidente. Claro que as mães só tomavam conhecimento de tal fato somente depois de algum joelho ralado, braço quebrado, dedo queimado, cabeça rachada e outras coisas mais.
Mais do que uma obra que mergulha na memória da infância, ''Mãe da Rua'' é um livro gráfico com fotos e esquemas visuais das brincadeiras de rua. O autor afirma que não tinha como objetivo esgotar o amplo leque das brincadeiras. Sua tarefa foi se limitar às atividades que praticou nas ruas de São Paulo entre as décadas de 50 e 60. As lendárias guerras de mamonas não são relatadas, mas é possível encontrar instruções de como construir um revólver de feijão utilizando caixa de fósforo, prendedor de roupa, borracha de câmara de ar e pilha usada.
''Mãe da Rua'' é uma oportunidade de marmanjos barbudos relembrarem a infância através das brincadeiras de turma realizadas longe dos pais. Também a chance dos marmanjos revelarem aos filhos as lembranças de suas próprias infâncias e estripulias do passado. Sem perder de vista que a infância é um universo exclusivo das crianças, a memória da infância, por sua vez, um universo exclusivo dos adultos.
Fragmento de ''Mãe da Rua'', de Ettore Bottini
Por ''rua'' entendia-se um espaço indeterminado e elástico que ia apenas até a esquina para os mais novos e se expandia com a idade da molecada e com a audácia das brincadeiras, chegando a ultrapassar as fronteira dos bairros na época de São João, quando o lema parecia ser: onde o balão cair, lá estaremos! A rua era também mais do que um ginásio poliesportivo, era nosso espaço social, nosso território defendido a paus e pedras das hostes inimigas, onde exercíamos nossas simpatias e antipatias, e onde observávamos, com desejo e temor disfarçado de sarcasmo, os movimentos do agrupamento do sexo oposto. Hoje, essas funções são mais ou menos cobertas pelas escolas exceto, talvez, a territorialidade do bando; para nós, a escola era como o emprego para nossos pais: algo que, bem ou mal, precisava ser feito.
Serviço:
- Mãe da Rua, de Ettore Bottini. Editora Cosac Naify, 48 páginas, ilustrado, R$ 42,00


