Em solo brasileiro, Clarice Lispector sempre foi louvada como espécie de deusa das letras. Sua vasta legião de admiradores dobra esquinas, contorna quarteirões, percorre estradas e se estende pelos quatro cantos.

Em solo americano a história era diferente. Sua literatura era completamente desconhecida. Aparecia apenas de maneira discreta nos cursos acadêmicos de língua portuguesa e literatura brasileira. Uma espécie de óvni. Pelo menos até agosto de 2008, quando aportou nas livrarias americanas uma biografia de Clarice Lispector escrita por um norte-americano chamado Benjamin Moser.
A obra despertou a curiosidade de milhares de americanos para a literatura de Clarice, que passou a ser chamada de ''escritora misteriosa''. O objetivo de Benjamin Moser - um apaixonado incondicional pela obra da escritora -, era apresentar a vida e a obra de Clarice Lispector os leitores de países de língua inglesa. E conseguiu.

O livro, ''Clarice,'' chegou essa semana às livrarias em sua edição brasileira. Lançado pela editora Cosac Naify, a biografia oferece detalhes inéditos e novas abordagens sobre a vida e obra de Clarice Lispector. Até então, a mérito da biografia mais completa da escritora residia sobre ''Clarice: Uma Vida Que Se Conta'' (Editora Ática, 1995) de Nádia Battella Gotlib. A obra de Benjamin Moser dá um passo além numa pesquisa que durou cinco anos e dezenas de viagens.
Entre as várias teses que Benjamin Moser levanta em ''Clarice,'' a principal está na influência da ascendência judaica na literatura da escritora. Partindo do fato de que a literatura criada por Clarice foi única, sem nenhuma semelhança, ou vínculos, com a literatura brasileira que a antecede, sua escrita estaria muito mais atrelada à tradição literária da mística judaica do que à literatura brasileira propriamente dita.

Embora nunca tenha professado a religião judaica herdada dos pais imigrantes, Clarice teria utilizado o processo cabalístico para criar sua escrita. Através dessa tese, Benjamin Moser traça, sutilmente, semelhanças no procedimento literário de Lispector com autores norte-americanos igualmente judeus e filhos de imigrantes.

No campo amoroso, Benjamin Moser deixa claro que os dois maiores amores de Clarice a deixaram na amargura da sarjeta. O primeiro teria sido o escritor Lúcio Cardoso, que apesar do amor e da amizade que tinha por Clarice, preferiu os homens, não as mulheres. O segundo teria sido o cronista Paulo Mendes Campos, que apesar de viver uma paixão enlouquecida extraconjugal com Clarice, preferiu a esposa, não a amante.

''Clarice,'' muda um pouco a imagem da ''misteriosa escritora'' que, no Brasil geralmente é chamada de ''a dona de casa que escrevia''.

Serviço
- Clarice,
Autor - Benjamin Moser
Editora - Cosac Naify
Tradução - José Geraldo Couto
Quanto - R$ 79 (648 pág. capa dura)



'Os dois vícios de Clarice, os cigarros e os remédios para dormir, cobravam finalmente seu preço. Ela dormia numa cama de solteiro, junto a uma janela com cortinas, e sempre tivera problemas com o sono, indo dormir por volta das nove e levantando nas primeiras horas da manhã. Naquela noite, depois de tomar suas pílulas, ficou fumando na cama. Quando acordou o quarto estava em chamas. Seu filho Paulo tirou-a do quarto incendiado e tocou insistentemente a campainha do apartamento vizinho. Os assustados moradores, Saul e Heloísa, mal saíram do sono e viram Clarice, com o corpo todo queimado, em pé diante da porta. Ela não disse uma única palavra. Saul e Paulo correram para apagar o fogo enquanto Heloísa levava Clarice para dentro. Sua camisola de náilon meio derretida estava grudada no corpo e, ao caminhar pelo carpete de Heloísa, deixou pegadas de sangue.

(Fragmento de ''Clarice,'' de Benjamin Moser)

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