LEITURA - Mulher indomável
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de junho de 2018
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

Até anos atrás ela era uma ilustre desconhecida. Autora de mais de 40 obras, seus livros sempre foram publicados por pequenas editoras em minúsculas tiragens. Cultuada pelos críticos e desconhecida do grande pública, Hilda Hilst começa a sair das sombras.
Ela será a grande homenageada no Flip - Festa Literária de Paraty de 2018, que acontece entre 25 e 29 de julho. Mas o fato que realmente merece luz é a publicação de suas obras completas. Tudo começou em maio de 2017, quando a editora Companhia das Letras lançou "Da Poesia", volume que reunia toda a produção poética de Hilst. O volume traz os 25 livros de poesia publicados pela escritora paulista. Do primeiro, "Presságio", de 1950, ao último, "Cantares do Sem Nome e de Partidas", de 1995.
Esta semana a editora coloca nas livrarias outros três títulos de Hilst: "Da Prosa", "De Amor Tenho Vivido" e "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão". O destaque reside em "Da Prosa", uma caixa com dois volumes que reúnem a produção em prosa completa da autora. Traz 11 livros publicados originalmente entre 1970 e 1997.
"De Amor Tenho Vivido" é uma antologia com uma seleção de 50 poemas que versam sobre o amor, um tema recorrente na obra de Hilst. Em edição de luxo, o volume vem acompanhado por pinturas a óleo da pintora mineira Ana Prata. Para a poeta, o amor não figura entre as afetividades de fácil alcance, na verdade trata-se de uma complicação infinita e, na maioria dos casos, inatingível.
"Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão" resgata a edição original publicada por Hilst em 1974. Um livro que já está presente volume "Da Prosa" e sugere que a editora pretende também reeditar separadamente os livros mais significativos da autora. Para o segundo semestre de 2018 está previsto o lançamento da biografia de Hilst, além da adaptação para quadrinhos de "A Obscena Senhora D", realizada por Laura Lannes e uma antologia de poesia erótica.
A literatura de Hilda Hilst está mergulhada em um tripé temático recorrente: o amor, a morte e o sagrado. Sua literatura não foi escrita para damas ou princesas. Sua literatura foi criada para ser forte, para ter potência. Para ela, a literatura produzida por mulheres sempre foi frágil e diluída: "Sempre me impressionei com a força física. Se as reencarnações existem, quero voltar homem. Tenho uma violência interna muito grande e meu trabalho possui esse referencial de força e de potência. Não conheci mulheres escritoras que me estremecessem."
Hilst nasceu em Jaú, interior de São Paulo, em 1930. Filha caçula de uma família de fazendeiros de café, cursou direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco de São Paulo. Após atuar na advocacia por um breve período, abandonou tudo de para se dedicar exclusivamente à literatura. Para isso isolou-se na fazenda da família situada na região de Campinas. E foi nesse lugar, chamado Casa do Sol, que viveu por quase cinco décadas. Faleceu em 2004, aos 73 anos de idade.
Hilst escreveu várias peças teatrais que ainda permanecem inéditas em livro. A primeira encenação do "Verdugo" (texto dramatúrgico escrito em 1969) aconteceu em Londrina, em 1972, numa montagem do grupo Núcleo I, companhia que posteriormente daria origem ao grupo Proteu.
Serviço:
"Da Prosa"
Autora Hilda Hilst
Editora Companhia das Letras
Posfácios Alcir Pécora, Carola Saavedra e Daniel Galera
Páginas 888
Quanto R$ 89,90

[left]Fragmentos:
(...) Agora escreve: dentro de mim, este que se faz agora, dentro de mim o que já se fez, dentro de mim a multidão que se fará. Alguns eu os conheço bem. Mostram a cara, assim é que eu gosto, me enfrentam, assim é que eu gosto, cospem algumas vezes na minha boca, assim é que eu gosto. Gosto de enfrentar quem se mostra. Olhe aqui, Ruiska Ruiska sou eu, eu me chamo Ruiska para esses que se fazem agora, para os que se fizeram, para a multidão que se fará, e para não perder tempo devo dizer que minha mulher se chama Ruisis e meu filho se chama Rukah. Não me percam de vista, por favor. Olhe aqui, Ruiska, você não veio ao mundo para escrever cavalhadas, você está se esquecendo do incognoscível. O incognoscível? É, velho Ruiska, não se faça de besta. Levanto-me e encaro-o. Digo: olhe aqui, o incognoscível é incogitável, o incognoscível é incomensurável, o incognoscível é inconsumível, é inconfessável. Ele me cospe no olho, depois diz: ninguém está te mandando escrever sobre o incognoscível, estou dizendo não se esqueça do incognoscível. Ah, está bem. Finjo que entendo. Ou entendo realmente que não devo esquecer do incognoscível? Encosto a cabeça no chão. Não porque tenha vontade, não, ele é que me obriga a encostar a cabeça no chão. Irriga a tua cabeça, velho Ruiska, suga a vitalidade da terra, torna-te terra, estende-te no chão agora, abre os braços, abre os dedos, faz com que tudo se movimente dentro de ti, torce as tuas vísceras, expele o teu excremento. Quem é você, Ruiska? Hein? Ele está começando a perder a paciência, está se aproximando, me esbofeteia, não faz mal, vai batendo, vai me arrancando os dentes, corta a minha língua, faz o que quiser mas eu não sei responder. Quem é você, Ruiska? Hein? (...)
(Fragmento de "Fluxo" que integra "Da Prosa" de Hilda Hilst)
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"De Amar Tenho Vivido"
Autora Hilda Hilst
Ilustrações Ana Prata
Editora Companhia das Letras
Páginas 96 (capa dura)
Quanto R$ 49,90

As asas não se concretizam.
Terríveis e pequenas circunstâncias
Transformam claridades, asas, grito,
Em labirinto de exígua ressonância.
Os solilóquios do amor não se eternizam.
E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia.
E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam alegria
(Poema de Hilda Hilst que integra "De Amar tenho Vivido")
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"Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão"
Autora Hilda Hilst
Editora Companhia das Letras
Páginas 132
Quanto R$ 24,90

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim,
como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei.
E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
(Poema de Hilda Hilst que integra "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão")
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As coisas que procuro
Não têm nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.
Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.
Tive casa e jardim.
E rosas no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim
Sua brancura, o cheiro.
Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.
(Poema de Hilda Hilst que integra "De Amar tenho Vivido")[/left]


