LEITURA - Muito além da Europa
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Toda vez que a Academia Sueca divulga o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura também anuncia as razões da escolha, as implicações e repercussões de sua obra. Realiza uma espécie de justificativa para a escolha de determinado autor.
Na última quinta-feira, quando divulgou o nome do escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio como o vendedor do Nobel de Literatura de 2008, a Academia justificou a escolha com as seguintes palavras: ''Le Clézio é um escritor da ruptura, da aventura poética e do êxtase sensual, explorador de uma humanidade além e acima da civilização reinante''.
Diferente de outros vencedores do Nobel de Literatura, que ganham o prêmio sem nunca terem publicado uma única obra no Brasil, Le Clézio é um velho conhecido dos leitores brasileiros. Sua obra começou as ser publicada no País ainda na década de 80 com os romances ''O Deserto'' (Brasiliense, 1987), ''À Procura do Ouro'' (Brasiliense, 1989). Em seguida aportou nas livrarias ''Diego e Frida'' (Escritta, 1994), ensaio biográfico em que o escritor narra a conturbada história de amor entre os pintores mexicanos Diego Rivera (1886 - 1957) e Frida Khalo (1907 - 1054). Hoje os três livros só podem ser encontrados em sebos com uma boa dose de sorte.
Nos anos seguintes foram lançados ''A Quarentena'' (Companhia das Letras, 1997), ''Peixe Dourado'' (Companhia das Letras, 2001) e ''O Africano'' (Cosac Naify 2007), três obras que ainda podem ser encontradas nas livrarias. Entre elas, o romance ''A Quarentena'' merece destaque. Curiosamente foi escrito inspirado no clássico da literatura brasileira ''Os Sertões'' de Euclides da Cunha (1866 - 1909). O objetivo de Le Clézio era criar uma narrativa que trafegasse entra as características de reportagem desenvolvida por Euclides da Cunha e os romances de aventura concebidos pelo escritor escocês Robert Louis Stevenson (1850 - 1894).
Em ''A Quarentena'', Le Clézio narra a história de um navio que segue, no final do século 19, a caminho de Maurício, ilha de colonização francesa localizada no Oceano Índico, próxima a Madagascar. Os irmãos europeus León e Jacques estão a bordo numa tentativa de rever seus antepassados. A grande maioria dos passageiros é formada por imigrantes indianos destinados ao trabalho semi-escravo dos engenhos de açúcar da ilha. No meio do caminho alguns tripulantes começam a padecer de varíola. Temendo uma epidemia, o navio de bandeira britânica abandona seus passageiros numa pequena ilha vulcânica, Plate, próxima de Maurício.
Nessa ilha selvagem, os passageiros permanecerão em quarentena enfrentando uma inóspita aventura pela sobrevivência. Atacados pela varíola, cólera, tifo, sem medicamentos, racionando alimentos e água potável, viverão numa ilha dividida ao meio, de um lado um pequeno grupo de civilizados europeus, do outro, a grande massa de imigrantes hindus. A beleza da natureza de Plate e a horrível morte epidêmica comungam numa dualidade desconcertante.
Os personagens mágicos da narrativa são León e Suryavati. León, em suas andanças pela ilha, encontra a imigrante indiana Suryavati que acompanha a morte da mãe e da avó. Fatalmente se apaixonam e vivem uma relação reveladora. Na realidade, Le Clézio constrói um belíssimo triângulo amoroso que envolve León, Suryavati e a natureza da ilha. León abandona seus laços civilizatórios para cair nos braços da natureza e nos seios de Suryavati. Seu passado é queimado nas mesmas piras em que são cremados as vítimas da epidemia.
Ao considerar J. M. G. Le Clézio ''um explorador de uma humanidade além e acima da civilização reinante'', o comitê do Nobel de Literatura frisou uma das qualidades de sua obra: o deslocamento do foco europeu centrado em si mesmo. O exemplo dessa característica está presente no romance ''Peixe Dourado'', onde os limites geográficos são eliminados para que os limites individuais sejam reforçados.
Em ''Peixe Dourado'', Le Clézio apresenta a história de Laila, uma mulher em busca de liberdade e, principalmente, de si mesma. Aos seis anos de idade foi roubada da família, que habitava a região africana do Saara ocidental. Vendida a uma velha senhora judia em Marrocos, vive entre o papel de empregada e neta.
Quando a velha senhora morre, Laila cai nas mãos da irmã da falecida. Após sofrer todos os tipos de maus-tratos, consegue fugir encontrando abrigo num prostíbulo. Adotada como mascote das moças da casa, consegue levar uma vida tranquila até que a polícia derrubar o lugar.
Ao lado de uma das moças, viaja para a Europa de maneira clandestina na esperança de uma vida melhor. Fixa residência na França, onde passa a engrossar o enorme contingente de estrangeiros sem visto de permanência no país. Fechada em guetos de negros, sofrendo o constante risco de extradição, Laila experimenta todo tipo de situação. Separando as boas das más, vai firmando sua liberdade como se construísse uma escada aparentemente sem fim. Graças à sua beleza negra, desperta a atenção e o desejo de homens e mulheres. O amor, nesse contexto, torna-se um problema não uma solução.
Jean-Marie Gustave Le Clézio nasceu em Nice, em 1940, filho de pai inglês e mãe francesa. Formado em Letras, é autor de 22 romances, seis volumes de contos e mais oito volumes de ensaios. Aos 68 anos de idade, ao receber a notícia de que havia acabado de ganhar o Nobel de 10 milhões de coroas suecas (aproximadamente US$ 1,4 milhão), disse apenas que estava sinceramente ''muito comovido''.


