Quando J. M. Coetzee recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 2003, o livro mais citado de sua autoria foi ''Desonra''. Não pelo romance ter sido agraciado pelo Booker Prize, mas por sintetizar o foco da literatura do escritor sul-africano: os porões dos sentimentos humanos e as relações sociais decorrentes de processos históricos.
Lançado semana passada pela editora Companhia das Letras, ''Desonra'' narra a história de Lurie, um professor de literatura carregado de ironias. Com 52 anos de idade e dois divórcios, leva uma vida solitária e erudita. Todo santo dia pensa em escrever uma ópera sobre o poeta Lord Byron, mas nunca sai das primeiras linhas.
Lurie acredita ter solucionado um dos seus maiores problemas: o impulso sexual. Uma vez por semana visita uma jovem prostituta que lhe acolhe como amante. Durante uma hora e meia, paga por um pequeno paraíso dentro de seu árido cotidiano.
O paraíso termina no dia em que a moça resolve abandonar a profissão. Carente, com as forças do desejo gritando pelo corpo, cai na tentação de seduzir uma de suas alunas. Mesmo sabendo que não deve se envolver com a garota, o impulso sexual toma conta da situação e joga a razão para escanteio.
O caso vem à tona e Lurie é acusado de abuso sexual. Sofrendo pressão e humilhação por parte dos alunos, familiares da garota, imprensa e dos colegas professores, enfrenta um julgamento por parte da direção da universidade. Admitindo sua culpa no caso, se recusa a redigir um documento que tenta escamotear os fatos, declarando-se arrependido. Numa postura ética, faz questão de deixar claro que se considera culpado e deve ser punido. Não se sente arrependido por ter ferido a razão e o bom senso. Acredita que arrependimento pertence apenas ao universo do discurso, não da realidade.
Tudo termina com sua demissão, sem direito à aposentadoria. Isolado e hostilizado, resta-lhe abrigar-se na casa de sua filha única, Lucy. A moça, uma ex-hippie, vive num sítio no interior da África do Sul e divide seu tempo entre o cultivo de flores e a assistência a cachorros abandonados.
Lurie passa a viver num novo contexto, presenciando de perto as relações entre negros e brancos no período pós-apartheid do país. Ocupa seu tempo como voluntário de uma ONG empenhada em recolher cães doentes e abandonados pelas ruas. Não se trata de levar os animais à um asilo para cães, mas um lugar onde suas dores são aliviadas através da morte. A função de Lurie é acalmar os animais no momento em que é aplicada a injeção fatal.
No intervalo das brigas entre pai e filha ocorre um episódio que tornará a convivência mais complicada. A casa é invadida por três negros que, além de roubarem a residência, colocam fogo em Lurie e estupram Lucy. Não se trata de uma típica violência gratuita, mas uma vingança dos nativos contra a supremacia e opressão dos brancos exploradores.
A partir desse momento uma nova luta ganha sentido entre pai e filha. De um lado, Lurie pretende enfrentar o problema de frente, sem concessões. De outro, Lucy deseja encarar o drama de outra forma, realizando todas as concessões possíveis e inimagináveis.
Em ''Desonra'', J. M. Coetzee oferece uma vasta gama de relações humanas sem isolá-las para melhor focalizá-las. Consegue abordá-las de sem fantasias a partir do todo. A lista não é pequena: pai e filha, desejo e razão, justiça e injustiça, brancos e negros, amantes e amigos, velhos e jovens, homens e animais, poder e dever, explorador e explorado, paz e violência, miséria e riqueza, etc.
Como a maioria dos romancistas contemporâneos, Coetzee não apresenta uma conclusão clara e definida no final de ''Desonra''. Sua narrativa não está empenhada em fechamento de idéias, mas em sua abertura. As últimas linhas do romance não podem ser consideradas como fim, mas como começo.
De origens holandesa e inglesa, John Maxwell Coetzee nasceu na África do Sul em 1940. Professor de literatura, lecionou em várias universidades dos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália e África do Sul. É autor de mais de vinte livros, entre eles ''Juventude'', ''Homem Lento'', ''A Vida dos Animais'', ''Infância'', ''À Espera dos Bárbaros'', ''Verão'', ''Cenas de Uma Vida'', ''O Mestre de São Petersburgo'' e ''Terras de Sombras''.
Serviço:
Desonra
Autor - J. M. Coetzee
Editora - Companhia das Letras
Tradução - José Rubens Siqueira
Páginas - 248
Quanto - R$ 56,00

  Ela está de penhoar e chinelo com o jornal do dia anterior no colo. O cabelo escorrido; gorda, de uma gordura desleixada e pouco saudável. Mais e mais começa a se parecer com aquelas mulheres que vagam pelos corredores dos asilos, resmungando consigo mesmas. Por que Petrus irá se dar ao trabalho de negociar? Ela não vai resistir: basta deixá-la sozinha que acabará caindo como uma fruta podre.
- Já fiz minha proposta.
- Não, eu não vou embora. Vá e diga para o Petrus o que eu disse. Diga que eu desisto da terra. Diga que pode ficar com ela, com escritura e tudo. Ele vai adorar isso.
- Há uma pausa.
- Que humilhação, ele diz afinal. Tantos projetos para terminar assim.
- É, eu concordo, é humilhante. Mas talvez seja um bom ponto para começar de novo. Talvez seja isso que eu tenha que aprender e aceitar. Começar do nada. Com nada. Não com nada, mas... Com nada. Sem cartas, sem armas, sem propriedade, sem direitos, sem dignidade.
- Feito um cachorro.
- É, feito um cachorro.
(Fragmento de ‘‘Desonra’’, de J. M. Coetzee)

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