Uma história cabe em qualquer lugar ou em qualquer lugar cabe uma história?
Para Alberto Mussa, não existe apenas uma escolha para essa questão. Para ele, uma história pode estar em qualquer lugar, do mesmo modo como qualquer lugar pode conter uma história.
A prova disso está em "Os Contos Completos", novo livro do escritor carioca lançado pela editora Record. Há histórias para todos os lugares e também lugares para um mar de histórias. São narrativas que misturam ficção, antropologia, historiografia e mitologia de maneira simples e potencializada.
"Os Contos Completos" é formado por 32 textos divididos em quatro seções: "Histórias Cariocas", "Narrativas Orientais", "Relatos Brasileiros" e "Variações Machadianas". Cada uma das seções pode ser considerada um livro próprio, com características específicas.
A primeira seção reúne histórias ambientadas no Rio de Janeiro nas mais variadas épocas. Das tribos indígenas que habitavam a região na época da colonização portuguesa, passando pela adaptação dos escravos africanos, e chegando até a população que passou a habitar os morros da cidade. O entendimento da cultura nessa trajetória ocupa lugar de destaque.
A segunda seção, "Narrativas Orientais", reúne contos ambientados na região oriental do planeta de antigas civilizações. São histórias que envolvem desde o canibalismo praticado pelas Cruzadas em solo árabe, passando pela criação do ideograma pelos chineses e pela mitologia dos antigos povos africanos. Narrativas que lembram alguns contos do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899 – 1986).
A seção seguinte, "Narrativas Brasileiras" traz histórias que envolvem índios, portugueses e negros ao longo da historiografia do país. Há histórias dos primeiros nativos que entraram em contato com a tripulação das caravelas portuguesas que aportaram no litoral. Há as artimanhas dos portugueses em conseguir uma mulher branca para apaziguar a libido saturada de índias e negras. Há as estratégias de Zumbi para criar um simbolismo na luta pela liberdade.
Na última parte, "Narrativas Machadianas", o autor recria contos de Machado de Assis (1839 – 1908) a partir de leituras investigativas. São histórias que partem da obra de Machado para se aventurar pela metaliteratura, onde a matéria-prima da narrativa torna-se a própria literatura.
"Os Contos Completos" possui algumas peculiaridades. Isso porque Alberto Mussa possui poucos contos publicados, quase todos originalmente lançados no volume "Elegbara" de 1997. Na realidade, grande parte das histórias que integram "Os Contos Completos" foi retirada dos romances publicados pelo autor.
Alberto Mussa explica essa ideia de edição da seguinte forma: "O livro não é a compilação de meus contos completos. É apenas a coleção de minhas narrativas curtas que podem ser lidas de maneira autônomas, livre de qualquer contexto. Contém, assim, além de contos propriamente ditos, todas as histórias que estão inseridas ou que são desmembráveis dos meus romances." Ou seja, todos os textos presentes do volume foram reescritos, modificados ou reconfigurados.
Alberto Mussa nasceu em 1961 na cidade do Rio de Janeiro. É autor de cinco romances que unem a historiografia brasileira e o romance policial: "O Trono da Rainha Jinga" (Record, 2007), "O Enigma de Qaf" (Record, 2004), "O Movimento Pendular" (Record, 2006), "O Senhor do Lado Esquerdo" (Record, 2011) e "A Primeira História do Mundo" (Record, 2014). Relativamente pouco conhecido pelos leitores brasileiros , seus livros já foram publicados em 17 países em 15 idiomas. Publicou outros dois títulos que merecem atenção: "Os Poemas Suspensos" (Record, 2006) que traz traduções realizadas diretamente da língua árabe da poesia pré-islâmica; e "Meu Destino é Ser Onça" (Record, 2009), um ensaio ficcional sobre os mitos dos índios tupinambás, etnia que deixou profundas marcas nos europeus que aportaram no Brasil no período de colonização portuguesa.
"Os Contos Completos" se revela uma ótima oportunidade do leitor conhecer um escritor que vem desenvolvendo um trabalho diferenciado na atual literatura brasileira.
Se uma história cabe em qualquer lugar e em qualquer lugar cabe uma história, Alberto Mussa demonstra que o lugar pode ser aqui, e as histórias podem ser daqui. Histórias tão simbólicas quanto os mistérios que fazem dos homens construtores de mistérios.

Serviço:
"Os Contos Completos"
Autor – Alberto Mussa
Editora – Record
Páginas – 400
Quanto – R$ 42,90

Mécia Vieira nunca tinha acreditado em Ipojicá. Não por intuição: era óbvio que um homem em fuga não teria o escrúpulo de contar os mortos. Tentou racionalmente convencê-lo disso. E chegou a oferecer dinheiro ao guarulho, para que contasse uma história diferente. A honestidade do índio pôs sua vida em risco. Sabia que não poderia resistir. Por isso, na noite do primeiro evento – quando abrira a porta para Joaquim Carvalho, que ameaçava incendiar a casa – forjara o plano. – Se em sete anos Manuel não retornar, escolho um novo esposo. Enquanto isso, venham; um de cada vez. Joaquim de Carvalho ainda relutou – queria a alvura de Mécia só para si. Mas teria que lutar sozinho, contra todos. E acabou apaziguado, cedendo a vez, no dia seguinte, ao pulha do José de Barros. João Ramalho – que só gostava das índias e de suas mamelucas – aprovou o acordo, tacitamente, porque não acreditava no regresso de Manuel Repincho, mas admitia as razões daquela excêntrica Penélope, que em vez de tecer e destecer seu manto, para afastar os pretendentes, sequer trocava a colcha onde todos se deitavam. Por muitos anos, os habitantes de Santo André da Borda do Campo lembrariam a emoção de Mécia diante do marido – para quem se guardara durante tanto tempo. Exultante e furiosa, exigia que o desagravassem. Longe do tumulto, caído no lugar onde mais tarde seria posto o pelourinho, depois de farejar os lençóis de Mécia e conduzir o dono no caminho da vingança, morria o cão. Ele, também, como Argos, tinha esperado aqueles anos todos. (Fragmento do conto "A Trilogia Homérica", que integra "Os Contos Completos" de Alberto Mussa)
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