Tudo começa com um sujeito chamado Samuel caminhando numa dolorosa penitência sob o escaldante sol do sertão do Ceará. Pés descalços, cheio de bolhas e feridas. Fome e sede dos diabos para cumprir a promessa feita à mãe no leitor de morte: encontrar o pai que não chegou a conhecer na pequena cidade de Candeia.

Quando finalmente Samuel chega a Candeia, estropiado e em farrapos, se abriga no primeiro buraco que encontra pela frente. Achando tratar-se de uma gruta, cai no sono e acorda com uma multidão de vozes nos ouvidos. Em pouco tempo descobre que não está abrigado numa gruta, mas dentro da cabeça oca de uma estátua gigante de Santo Antônio. Uma cabeça degolada de uma estátua abandonada no morro de Candeia.

As vozes que ouve, dentro da cabeça de Santo Antônio, são rezas de mulheres solicitando um marido ao santo casamenteiro. Afinal, no sertão agreste, segundo o dito popular, mulher que não casa é mandacaru sem flor.

Esse é o ponto de partida de "A Cabeça do Santo", romance da escritora cearense Socorro Acioli lançado pela editora Companhia das Letras. O que acontece depois é uma sucessão de acontecimentos improváveis, pitorescos, folclóricos e fantásticos. As tradições populares se misturam com o imaginativo numa história onde o real o onírico comungam do mesmo solo.

Nascida em 1975, em Fortaleza, Socorro Acioli é autora de dois ensaios biográficos, "Frei Tito" e "Raquel de Queiroz", e mais de vinte títulos infantis e infantojuvenis. O mais conhecido deles, "Ela Tem Olhos de Céu" (editora Gaivota, 2012), recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil de 2013. "A Cabeça do Santo" é seu primeiro romance. A ideia para o livro nasceu em 2006, quando a escritora foi a brasileira selecionada para participar de uma oficina literária ministrada pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez em Cuba.

"A Cabeça do Santo" traz uma sucessão de acontecimentos em cadeia, fatos rápidos, inesperados e reveladores. Em sua narrativa, Socorro Acioli trabalha com descrições concisas e ágeis que dão origem a um texto enxuto, sintético, sem divagações ou malabarismos linguísticos. Sem nenhuma preocupação em transmitir uma mensagem profunda ou complexa, seu objetivo é simplesmente narrar uma história onde sentimentos de gente simples do povo merecem destaque. O resultado é um tipo de brasilidade não muito focalizada pela atual literatura brasileira dos grandes eixos urbanos.

Ao ouvir as rezas e suplicas dentro da cabeça de Santo Antônio, Samuel passa a conhecer os desejos e segredos das mulheres da cidade. Daí para se tornar um intermediário milagreiro entre as solteiras e o santo é um pulo. E assim, um sujeito cético de desprovido de fé, torna-se porta voz do santo graças a esperteza.

Em pouco tempo a notícia se espalha e a cidade se torna ponto de peregrinação de fieis. O comércio da fé abraça a oportunidade com unhas e dentes. O problema é que o prefeito do lugar tem outras intenções para o futuro da cidade em nome da corrupção.

Em "A Cabeça do Santo", a ingenuidade das personagens é pautada não apenas pela fé, mas também pela simplicidade moral. Um tipo de ingenuidade que consegue enxergar o mundo e a existência como verdade a ser cumprida. Todo tipo selvagem de ambição não encontra espaço nesse tipo de ingenuidade e tende a morrer de inanição.

Samuel assume a imagem daquele que, apesar da possibilidade de conseguir algo mais, escolhe algo menor. Tudo que deseja é voltar às origens. A simplicidade como ela realmente é. A simplicidade assumindo a forma de dádiva, de milagre.

Serviço:
"A Cabeça do Santo"
Autor – Socorro Acioli
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 176
Quanto – R$ 37,00 e R$ 25,50 (e-book)

Eram exatamente cinco horas da manhã quando Samuel começou a acordar, atormentado, confuso. Ouvia vozes de mulheres, várias, falando ao mesmo tempo. Falando, falando, falando. Parecia reza, briga, conversa, tudo ao mesmo tempo. Talvez fosse pesadelo, pareciam as mulheres do Horto. Sentou-se, assustado, acordado, mas as vozes não paravam. Mais alto, mais forte e, sim, era reza. Parecia a voz das carpideiras amigas de Mariinha, tirando o terço quando morria gente. Samuel saiu correndo daquela maldita gruta sem se lembrar que a perna estava ferida com a mordida do cão, que estava fraco, faminto, cansado, e caiu no chão poucos metros depois. Não tinha mulher nenhuma rezando ali, não havia ninguém por perto, nem os cachorros da noite. Do lado de fora, só mato, chuvas fina e silêncio, não se ouvia nenhuma voz, nem o sal fazia nenhum barulho para acordar. Quando se virou para observar o lugar onde estava, com a ajuda da pouca luz do céu encoberto, Samuel percebeu que a grita onde passou a noite era, na verdade, uma cabeça gigante, oca e assustadora. Mesmo coberta de plantas, via-se que o nariz era grotesco, dois buracos enormes, boca pra cima, lábios grossos, olhos esbugalhados, expressão séria. O globo ocular era mais assustador: um par de bolas de concreto presas por fios de aço nos olhos vazados. Não era uma cabeça maciça, mas feita de peças simétricas e numeradas com tinta branca. Samuel levantou-se com dificuldade e chegou mais perto. Aquilo era delírio, ele pensava. (Fragmento de "A Cabeça do Santo" de Socorro Acioli)
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