LEITURA - Memórias do presente
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de abril de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para Folha2 
Profissionais da imprensa que passam anos e anos trabalhando em jornais e revistas geralmente possuem muitas histórias para contar. Histórias sobre notícias e como elas são geradas. E, claro, sobre pessoas que geram as notícias.
O jornalista carioca Zuenir Ventura, com quase cinco décadas de profissão, decidiu narrar suas memórias em 'Minhas Histórias dos Outros'. Lançado pela Editora Planeta, o livro, que chega às livrarias nesta semana, na verdade traz fragmentos de memória do autor vinculados a episódios políticos e culturais do Brasil dos últimos 50 anos. O foco principal dos relatos recai sobre personagens que Zuenir encontrou em contato ou conviveu ao longo do ofício.
O relato parte do tempo em que Zuenir era estudante de letras, aluno de figuras como Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima. Seu objetivo era tornar-se professor, mas depois que começou a trabalhar, ainda jovem, como auxiliar no arquivo 'Tribuna da Imprensa', do Rio de Janeiro, e rapidamente foi deslocado para a redação do jornal. Como repórter, e posteriormente editor, Zuenir fez carreira nos grandes jornais e revistas. Dessa experiência parte grande parte de suas memórias.
'Minhas Histórias dos Outros' não possui uma estrutura tradicional de obra memorialística. Em seus capítulos, o autor narra episódios isolados ou particularidades de personagens reais, sempre acompanhados de breves análises ou reflexões que situam o tema num contexto maior.
Glauber Rocha, por exemplo, está entre as várias figuras retratadas por Zuenir. Convivendo em várias ocasiões com o cineasta, começou a trabalhar numa possível biografia, projeto que trabalhou ao longo dos anos e acabou abandonando.
Zuenir relata os últimos meses de vida de um Glauber enlouquecido por elementos místicos. Levanta a tese controvertida de que talvez ele tenha morrido vítima da Aids, algo na época, início da década de 80, pouco conhecido e não facilmente diagnosticado pelos médicos. Suas investigações não chegaram a certezas, apenas a dúvidas.
Entre outros personagem retratados em 'Minhas Histórias dos Outros' está o escritor mineiro Pedro Nava. Mais especificamente o episódio de seu suicídio em 1984. Zuenir utiliza o caso para refletir sobre a confusão que a imprensa geralmente realiza entre o que é público e o que é privado na vida das pessoas.
O caso recorre às informações divulgadas por toda a imprensa nacional na época. As informações veiculadas diziam somente que Nava havia recebido um telefonema, em seguida saiu de casa com um revólver. Foi até a praça mais próxima e disparou um tiro da cabeça.
Grande parte da imprensa, ao investigar o caso, sabia que Nava estava sendo ameaçado por um garoto de programa com quem se relacionava. Para preservar a imagem moral do escritor, um dos maiores memorialista brasileiro, e de sua família, quase nada foi divulgado sobre os fatos reais.
A grande revelação realizada por Zuenir em 'Minhas Histórias dos Outros' é reservada ao último capítulo do livro. A história começa com a morte do ambientalista Chico Mendes. Encarregado de realizar uma reportagem sobre o caso, Zuenir acaba aceitando a tarefa de cuidar da maior testemunha de acusação contra os assassinos, um simples garoto chamado Genésio.
Ameaçado de morte em 1989, o garoto foi ''adotado'' pelo jornalista dentro de um programa de proteção de testemunhas. Fato guardado a sete chaves até então, é revelado de maneira humanitária. Sob sua tutela, o garoto problemático é arrancado de seu mundo natural e torna-se um nômade. Passa por várias cidades brasileiras, vivendo por pouco tempo em cada uma delas, sempre com a possibilidade de ser assassinado.
Vale ainda assinalar o relato sobre a atual violência urbana. Tomando como base o tráfico de drogas nos morros do Rio de Janeiro, Zuenir toma posição clara e lúcida diante do caso do documentarista João Moreira Salles, acusado de financiar o traficante Marcinho VP com objetivo de tirá-lo do mundo do crime.
'Minhas Histórias dos Outros' pode ser encarado como o retrato de um tempo. Uma espécie de presente do passado. Algo que leva a idéia de que grande parte da mídia, hoje, tornou-se a técnica em espetáculos, não em verdades.
Serviço:
- 'Minhas Histórias dos Outros' de Zuenir Ventura, Editora Planeta, 272 páginas, R$ 37,50.


