Décadas atrás, a chegada de um circo numa cidade do interior era um acontecimento mágico. Mobilizava toda a população ansiosa em sair da rotina e adentrar no universo espetacular do picadeiro.
Entre os vários circos que percorriam o interior do Brasil, o circo Nerino foi um dos mais conhecidos ao longo de meio século de existência. Considerada uma mais populares companhias do país, ficou gravada no imaginário de milhares de espectadores.
Sua lendária história está sendo resgatada em ''Circo Nerino'', obra escrita por Roger Avanzi e Verônica Tomaoki e lançado pela Editora Códex. Formado de depoimentos, recortes de jornais, cartas e fotografias, o livro reconstitui um representativo painel da arte circense brasileira. Narra a despretensiosa criação, a emocionante ascensão e melancólica queda de um circo que cruzou o país de ponta a ponta.
O Nerino foi criado em 1912 e teve sua primeira apresentação na cidade de Curitiba em janeiro de 1913. Segundo a lenda, o circo foi construído no Paraná porque a madeira encontrada no estado era extremamente barata. Para um circo do tamanho do Nerino, essa economia era significativa. Desde cedo houve a opção em não trabalhar com animais. Os únicos números com bichos que chegaram a acontecer, ao longo de 50 anos, eram utilizados apenas cavalos amestrados.
Como a hereditariedade sempre foi uma norma no mundo circense, o circo nasceu pelas mãos de Nerino Avanzi. Nascido numa família de artistas espanhóis, tornou-se famoso interpretando o palhaço Picolino. Com o avanço da idade, entregou o personagem para o filho, Roger Avanzi, que tornou-se um dos palhaços mais importantes da história circense brasileira. Vale lembrar que Picolino também foi o nome do palhaço criado por Ricardo Queirolo, em Londrina, na década de 60.
Grande parte dos circos brasileiros até o final da década de 50 tinha espaço reservado ao teatro e a música. No Nerino, por exemplo, números de circenses clássicos, representavam metade das atrações. A outra metade era ocupada pelo teatro. O repertório de peças teatrais era enorme. Segundo o depoimento de Roger, ''o público pedia teatro''. Entre as peças de maior sucesso estava a encenação da ''Paixão e Morte de Jesus Cristo''. Nessa época, não havia microfone no picadeiros. Todas as falas eram impostadas para que fossem ouvidas das arquibancadas. Essa necessidade deu origem a um estilo praticamente extinto.
Nessa época, as lonas dos circos duravam no máximo um ano de vida. A cada ano, em cidades variadas, os artistas contratavam um exército de costureiras para conseguir dar conta da tarefa. Em seguida a lona crua era armada normalmente e outro exército, de homens, se encarregavam de ''pintá-la'' com uma solução impermeabilizante produzida pelo próprio circo.
Apresentando a história de um circo específico, a obra reconstitui a história do circo no Brasil da primeira metade do século 20. Tanto emocional como historicamente, as alegrias e as dores dos artistas. O transporte de uma cidade para outra, por exemplo, era feito através apenas de trens, barcos e carroças. Depois, com o desenvolvimento da indústria automobilística, através de carros e caminhões.
Um dos elementos mais instigantes da obra são as centenas de fotografias que retratam a existência, entre aventuras e tragédias, do circo ao longo dos anos. Elas revelam um mundo praticamente desconhecido.
Dezenas de fotos são do antropólogo Pierre Verger, que fotografou montagem e desmontagem do circo. Para ele uma espécie de espetáculo paralelo fascinante.
O Nerino começou a entrar em decadência no final da década de 50 e, em 1963, fez sua última apresentação. Os tempos haviam mudado e a tradição pertencia ao passado.
Serviço:
- Circo Nerino, de Roger Avanzi e Verônica Tamaoki. Editora Códex/Pindorama Circus, 352 páginas, ilustrado, capa dura, R$ 80,00.

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